No Rio de Janeiro Country Clube de Ipanema, Daniel Magalhães, 9 anos, bate a raquete de tênis para tirar a terra batida. Seu adversário, uma cabeça e meia mais alto que ele e três anos mais velho, saca. Daniel consegue tocar na bola, mas não a devolve para o outro lado da quadra. Ele perde mais um game, senta no banco e enxuga o suor do rosto. Ele está perdendo por 1/6, 0/5. Mesmo assim, não desiste. Ele pensa em seu ídolo Andre Agassi e ainda acredita na virada.
Enquanto isso, Bruno Silva, 13 anos, boné do Vasco enterrado na cabeça, recolhe as bolinhas amarelas como se fossem notas de 20 reais. Daniel não presta atenção. Já está de volta à quadra, bola na mão. Ele quica a bola três vezes, como sua mãe fazia quando era tenista. Enxuga a testa, dá uma última quicada, desta vez entre as pernas. Saca com top spin, mas seu adversário devolve rente à linha. Ele tenta um saque e voleio, de novo é surpreendido. O ponto seguinte é mais disputado, mas Daniel também perde. 1/6, 0/5, 0/40. Três match points. O primeiro saque cai no quadrado errado. Daniel quica a bola três vezes, enxuga a testa e dá uma última quicada entre as pernas. A bola escapa da raquete de Daniel, que precisa dar três passos para recuperá-la no fundo da quadra. Ele retoma sua rotina, mas já é tarde demais. O segundo saque morre na rede. Game, set e match. Daniel Magalhães cumprimenta seu oponente e destrói sua raquete contra o banco.
Bruno não presta atenção. Ele não conhece bem o menino, mas ele está acostumado a vê-lo chorar de raiva. Ele faz seu trabalho, ele recolhe todas as bolas e as joga no carrinho, imaginando ser Michael Jordan. Daniel enxuga suas lágrimas na camisa novinha do Brasil, agora bordada com quatro estrelas. Podia perder para um adversário daqueles, mas não com uma dupla falta. Ele pega uma raquete nova na bolsa e olha Bruno pela primeira vez.
— Se eu sacar umas bolas, pode pegar?
Bruno dá de ombros em sinal positivo. Daniel rola o carrinho e pega as bolas. Uma por uma, ele as manda no T ou no angular. Durante mais de uma hora, saca seco, slice ou top spin, deixando apenas para Bruno o tempo de encher o cesto. Finalmente, à beira de uma cãibra, encerra o treino e olha para Bruno pela segunda vez.
— Obrigado, foi legal você ter ficado. Você torce para o Vasco?
— Claro, são os melhores do RJ.
— Maneiro, eu também. Jogo como centroavante no Vasco no dente de leite.
No Country Club, resta apenas o porteiro, Daniel e Bruno. Finalmente, Leonardo, o pai de Daniel, vem buscar o filho.
— E aí, filho? Ganhou?
— Não, o cara era muito maior que eu.
— Meu mestre fala que a gente aprende mais na derrota do que na vitória. Bora, vamos para a casa.
Ao sair Daniel abre a bolsa e oferece a raquete quebrada a Bruno.
— Toma, meu amigo. Um dia, eu vou ganhar Roland Garros e essa raquete vai valer uma fortuna. Obrigado por ter ficado para pegar as bolas.
Imediatamente, Daniel sente o olhar de reprovação de seu pai cair em cima dele.
— Daniel, fala para mim. Essa raquete era sua? Quero dizer, você pagou por ela?
— Não…
— Você não ganha de um jogador do seu clube e já fala de ganhar Roland Garros…
Leonardo olha para Bruno pela primeira vez. Tira a carteira do bolso e oferece dinheiro.
— É você que pega as bolas, né? Essa semana, você está de folga. Daniel vai te substituir para reparar o que ele quebrou. Como você se chama?
— Bruno.
— Você mora longe, Bruno? Já está tarde, posso te deixar mais perto de carro.
— Não, moro na favela do lado, no Pavão-Pavãozinho-Cantagalo.
— PPG? O morro tá fechado. Tem uma operação policial, é uma bagunça até dentro de Copacabana.
— De novo? Posso ir para a casa de meu primo, vou sempre para lá. Faço capoeira na Penha.
— Você vai até a Penha? Não tem projeto social no Pavão-Pavãozinho?
— É que… Na Penha, eles oferecem comida. Posso ir de ônibus.
— Como você paga o transporte?
— Pego as bolinhas de tênis.
Leonardo olha para o filho e pela segunda vez para o Bruno. Ele nota que ele tem um olho inchado e o canto do lábio aberto.
— E em casa, tá tudo bem?
Bruno dá de ombros. Sua mãe é ausente, às vezes fisicamente e quase sempre emocionalmente. Seu padrasto é lunático. Às vezes, ele é gentil e Bruno gosta dele. Às vezes, ele se diverte machucando Bruno. O menino de PPG tem 13 anos, mas pesa apenas 40 quilos. Desde bebê, sempre foi menor que os outros. Não consegue se defender em casa e nem na escola. Outros meninos da mesma idade mas muito mais fortes fisicamente e em maior número, o perseguem quase todos os dias. Ele volta para casa sangrando e ainda apanha.
— Vem, Bruno. Hoje, você dorme lá em casa.
Leonardo aproveita o curta trajeto até a casa da família em Ipanema para continuar a fazer perguntas a Bruno.
— Não precisa ser o mais forte para se defender. Já pensou treinar jiu-jitsu?
— Já, mas custa caro. Não tenho dinheiro.
O trio chega a Ipanema. Daniel quer que Bruno durma no seu quarto de criança, mas o gandula prefere o quarto destinado aos amigos e familiares hospedados. Pela primeira vez na vida, Bruno dorme sozinho em um quarto. No dia seguinte, ele já saiu quando a família Magalhães acorda. À noite, Daniel troca sua raquete pela função de gandula, como combinado. Bruno aparece para ajudá-lo e ganha definitivamente o respeito de Leonardo, que, já na véspera, tinha uma ideia na cabeça.
— Bruno, eu pratico jiu-jitsu e sigo os ensinamentos de Hélio Gracie no Humaitá. Se você quiser aprender essa arte para te defender na escola, pago seu primeiro ano de treinamento.
— Por que o senhor faz isso pra mim?
— Ou melhor… Por que eu não faria?
Mesmo após a transição para o real, Leonardo é multimilionário. Filho de um industrial, fez fortuna desenvolvendo um software que ele vende para empresas. Ele poderia viver bem apenas com a renda, mas ele continua trabalhando e expandindo sua marca. Leonardo valoriza o trabalho, o comprometimento e a solidariedade.
— Quando tenho uma intuição, muitas vezes é correta, Bruno. Você parece um menino humilde e trabalhador. Eu não acho que vou me arrepender de estender a mão para você. Se estiver disposto, eu só vou pedir a você de não faltar às aulas. Eu não ponho meu nome em jogo por preguiçosos.
Bruno sorri e promete ser assíduo em seu aprendizado. Todos os dias, ele segue os ensinamentos do mestre Gracie. No início de seu último ano do ensino fundamental, ele já se tornou um lutador de ótimo nível, o suficiente para imobilizar seu algoz. O menino assustado implora a Bruno que libere seu braço. Bruno pensa, pergunta-se se, no lugar dele, seu antigo opressor teria piedade. Bruno quebra o braço dele.
Nasce uma amizade improvável entre o filho de ricos e o menino da favela. Em um país atingido pela hiperinflação e ainda de luto pela morte de Ayrton Senna, Daniel e Bruno quase nunca se separam. Eles têm quatro anos de diferença, mas têm quase a mesma altura. Daniel é longilíneo, Bruno ainda é franzino. Juntos, jogam basquete. Eles são fãs desde os Jogos Olímpicos de Barcelona e imaginam ser os Chicago Bulls ou os Seattle SuperSonics. Jogam futebol, Bruno como goleiro, Daniel como centroavante. Surfam na praia de Ipanema e voltam para dormir na casa de Leonardo e Maria, dividindo o mesmo quarto de adolescente.
Quebrar o braço de seu antigo opressor poderia ter sido o fim dos problemas para Bruno, mas ele vive no Rio de Janeiro. Nas ruas de Copacabana ou nos clubes da Barra da Tijuca, ele cruza com pitboys, garotos de ricos que praticam o jiu-jitsu na academia de Ryan Gracie e gostam de brigas de cinco contra um. Para se defender, Bruno ingressa na academia Nobre Arte do mestre Cláudio Coelho e depois na Nova União. Quando não está suando nos ringues ou nos tatames, ele sua nos terraços da favela, onde achou um emprego de pedreiro. Entre o jiu-jitsu e o boxe, Bruno não consegue se decidir. Seu futuro talvez esteja no meio, no MMA.
Daniel também tem uma escolha a fazer. Seu talento chama a atenção tanto nos campos de futebol quanto nas quadras de tênis. Ele havia prometido se decidir antes do Ano 2000, mas ainda ganha alguns dias. No Maracanã, ele assiste ao jogo Vasco – Manchester United, com o pai e Bruno. No intervalo, Vasco vence por 3 a 0, graças a dois gols de Romário, o ídolo de Bruno, e um gol de Edmundo, de quem o maior fã é Daniel. Enquanto Bruno vai buscar três cocas, Leonardo volta ao assunto.
— Filho, você disse que ia se decidir antes do Ano-Novo.
— Eu sei, papai. Não consigo, eu amo os dois esportes. Gosto de ficar com meus amigos no Olaria e faço muitos gols. No tênis, gosto que tudo depende de mim. Se ganho ou perco, o responsável sou eu.
— Você tem que se decidir. Você ouviu seus treinadores. Agora, precisa se dedicar 100% a um esporte só, se você quiser ter alguma chance de conseguir.
— O que você faria no meu lugar, papai?
— Eu? Eu vendo softwares. Meu pai queria que assumisse a fábrica de metalurgia. Dizia que sem isso, ia falir. Ele tinha razão… Eu fiz o que me apaixonava, Dani. Foi assim que eu consegui. Trabalhando muito também… Você tem o tênis e o futebol. Eu acho que você tem mais chances de sucesso no tênis, mas é isso o que você prefere?
— Eu não sei…
Daniel se vira para Bruno, que acaba de voltar ao seu lugar, com as mãos carregando três refrigerantes.
— E você, Bruninho? O que faria no meu lugar?
— O que paga mais?
— Depende. Mas não é isso o que mais me interessa.
— Claro, já tá cheio de grana. Acho que você prefere assistir futebol no estádio ou na TV. Você prefere jogar futebol com os amigos. São pobres, você é rico, mas eles gostam de você pelo que você é. Se a gente falar de esporte, você prefere a bolinha amarela. Você é um cara de ouro, mas quando você perde no tênis, cê vira um babaca.
Daniel se ofende por um instante e sorri logo no segundo seguinte. Fixa os olhos na partida que já recomeçou. Ele nunca se imaginou pisar no gramado do Maracanã. Quando Gustavo Kuerten venceu Roland Garros, Daniel passou a noite inteira treinando forehands imaginários no saibro parisiense. No dia seguinte, sua cabeça não estava mais no Country Club, estava no Roland Garros. Antes mesmo do fim do jogo do Vasco, ele se vira para o pai.
— Papai, é o tênis. Acabou o futebol no Olaria. Eu quero me tornar jogador profissional de tênis.
— Tá bem, filho. Você tem 14 anos. Até os seus 21, vou pagar tudo para a sua carreira. O melhor treinador, os melhores equipamentos, as viagens, tudo que você vai precisar. Mas, se não der certo, vai ter que fazer outra coisa. E eu, eu teria apenas um cargo na minha empresa para te oferecer. Então, se você não gosta de informática, eu te aconselho que continue estudando.
Daniel faz a escolha certa. Emende uma maratona de treinos no Rio de Janeiro, torneios na América do Sul e joga seus primeiros Challengers através o mundo. O Orange Bowl com 18 anos, uma primeira partida na ATP e então, a revelação em 2004. Em Roland Garros, elimina um italiano na primeira fase e depois um polonês. A terceira fase parece insuperável. Ele joga contra Roger Federer, o melhor jogador do mundo e campeão do último Grand Slam. Se o nome de Daniel Magalhães ainda é pouco conhecido antes do jogo, não é mais o caso depois. Durante 3h49, Dani faz Federer tremer e arranca a vitória para sua primeira partida na quadra Central. A partir daí, ele não precisa mais do apoio financeiro do pai. A imprensa toda o compara a Gustavo Kuerten e acha que vai conquistar o título, mas ele cai na semifinal contra Nalbandian. Daniel sente uma mistura de tristeza, alegria e esperança. Ele sabe que um dia vai conquistar o Roland Garros.
Para Bruno, o caminho é mais longo. Ele ainda mora no Pavão-Pavãozinho, onde ensina jiu-jitsu para as crianças da favela em um projeto social criado por Fernando Tererê. Ele até recusou a ajuda financeira oferecida por Leonardo. Se tiver sucesso, será com seu suor e seu sangue. Se não, ele ainda poderá levantar sacos de cimento imaginando que são um cinturão de campeão do UFC. Bruno persiste e os sacrifícios começam a dar frutos. Faixa preta de jiu-jitsu brasileiro aos 23 anos, primeiro título em um torneio de Vale-Tudo e até uma medalha de bronze no boxe nos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro em 2007. Bruno tem o Brasil no coração e o Rio na alma, ele não podia faltar esse evento.
Daniel Magalhães fracassa nos anos seguintes em Roland Garros diante do monstro Rafael Nadal, mas conquista seu primeiro título de Grand Slam em 2009. Mais uma vez, Dani Maga supera Roger Federer, desta vez em 5 sets, para conquistar o US Open, para surpresa geral. Ele comemora em uma boate de Nova York e pega um voo para Dallas. Bruno Silva estreia no UFC, a liga mais prestigiosa das artes marciais mistas. Sem tremer, ele derrota um americano por finalização de chave de braço logo no primeiro round. Daniel e Bruno se distanciam, mas seus caminhos se cruzam. No início de 2012, quando Bruno acumula vitórias no octógono, Daniel se afasta das quadras por causa de uma lesão. Ele aproveita para recarregar as energias no Rio de Janeiro e assistir ao evento UFC 142, que dá destaque aos locais como Vítor Belfort, José Aldo e Bruno Silva. Com um magistral chute rodado no terceiro round, Bruno vence a luta e fatura o bônus pelo nocaute da noite. Na semana seguinte, Daniel e Bruno se encontram no camarote de uma boate na Barra da Tijuca. Daniel parece ainda mais feliz que Bruno.
— Meu irmão! O que foi aquele chute rodado?
— É a capoeira, mermão! Talvez eu não tivesse tentado contra outro lutador. Esse cara falou demais. Trash talk faz parte do jogo, mas fazia semanas que ele estava falando mal de minha família, do meu país.
— Não é muito perigoso aquele último golpe que você deu? Dava para ver que o cara estava inconsciente.
— Até o juiz parar a luta, eu bato. Se o cara não está pronto para morrer no octógono, o problema é dele. Eu tinha que dar uma lição nele. Aquele babaca me fez ganhar 130 mil dólares de bônus, apenas com aquela boca grande dele.
— É um esporte para malucos, agora entendo por que você escolheu isso. Qual é o próximo passo?
— Agora é a luta pelo título. Era a regra, o vencedor enfrentaria Frankie Edgar pelo cinturão.
— Como você está vendo essa luta?
— Ela faz parte da equipe do Renzo Gracie nos Estados Unidos. Sou um lutador e um pugilista melhor que ele. Vou vencer.
— Estou torcendo por você, meu irmão. Ser campeão é algo diferente. Eu achava que tinha alcançado o topo com a minha semifinal no Roland Garros quando eu tinha 19 anos. Teve a “Gugamania” com Kuerten e ali era a “Magamania”, uma loucura. Mas quando conquistei o US Open, eu vi a diferença. Você vai ver quando for campeão, te coloca em uma categoria à parte.
— Tomara. Se Deus quiser. E você, meu amigo, como tá?
— É difícil… Treinei muito o meu saque nos treinos. Forcei demais e tive uma lombalgia.
— Qual é o plano?
— Por enquanto, descanso. Estou recarregando as baterias perto dos meus.
— É… Cara, desculpa não ter ido ao velório de seu pai… Estava em pleno camp de treinamento nos Estados Unidos. Leonardo era como um pai para mim…. Um senhor assim, que não bebe, se alimenta bem, pratica esportes… Morrer de uma parada cardíaca aos 50 anos, é muito injusto.
— É, a gente não esperava isso… Mas ele estava, de um certo jeito. Sempre foi espiritual, talvez ele sabia. Seis meses antes de morrer, fez seu testamento.
Daniel tira um relógio do bolso e o oferece a Bruno.
— Esse Rolex é pra você. Era a vontade de meu pai.
— Ele me colocou no testamento?
— Ele gostava muito de você também. Era muito orgulhoso de seu sucesso.
— Me lembro desse relógio. Estava no pulso dele quando o encontrei.
— É por isso que te oferece. Você veio dormir em nossa casa e, no dia seguinte, foi embora antes de todo mundo acordar. Ele então pensou no relógio dele, que deixava sempre na mesa da sala. Ele pensou que talvez você tivesse roubado. Ele tinha 50 mil dólares no pulso. E então, antes mesmo de descer as escadas, ele se tranquilizou, sabia que você não roubaria. De manhã, o relógio estava na mesa e no fim da tarde, você me ajudava para pegar as bolas.
— Verdade que ele havia te mandado ser gandula! Você tinha quebrado a raquete, seu rabugento.
— Graças a Deus, estou mais tranquilo agora… Bruno, meu pai tinha muito orgulho de você, antes mesmo de você fazer sucesso no MMA. Quando eu era criança, ouvi ele várias vezes dizer que você era seu filho negro.
— Teria adorado. Meu pai biológico entrou em contato comigo. Agora que tenho milhões, ele quer me conhecer, ele quer encontrar seu neto.
— O que você disse para ele?
— Nada. Era quando eu pesava 40 quilos que precisava dele.
A amizade entre Bruno Silva e Daniel Magalhães torna-se conhecida do grande público. Em 2015, Bruno, campeão invicto dos pesos-leves do UFC, e Daniel, campeão do último ATP Finals, desfilam juntos sob a chuva no Carnaval do Rio. Três semanas depois, Daniel disputa a Copa Davis. Ele quer passar ao menos uma fase pela primeira vez, ainda mais que o adversário é a Argentina. No tênis também, a rivalidade Brasil – Argentina desperta paixões. O Brasil lidera por 2 a 1 e pode avançar às quartas de final pela primeira vez desde 2001 se Daniel derrotar Leonardo Mayer. O brasileiro começa perdendo por 2 sets à 0, empata em 2 a 2 antes de um quinto set interminável. Normalmente tão forte mentalmente, Daniel está vulnerável. Não joga por si mesmo ou por seus torcedores, ele joga por sua pátria. Ele também, tem o Brasil no coração e o Rio na alma. Por fim, acaba derrotado por 15 a 13 no último set de uma partida que durou 6h42, um recorde na história da Copa Davis. Para Dani Maga, só a derrota importa, e ela dói. Uma semana depois, em Dallas, no mesmo American Airlins Centre que tinha visto sua estreia no UFC, Bruno perde o cinturão que tinha há três anos, nocauteado no quarto round.
Enquanto Bruninho se recupera dos golpes sofridos, Dani se recupera da desilusão na Copa Davis, apesar de uma dor persistente nas costas. No Roland Garros, joga sob infiltrações, única solução para disputar várias partidas em sequência. Seu corpo esquece a dor e o finalista em 2010 e 2014 disputa outra final no saibro parisiense, contra Novak Djokovic. Ele perde o primeiro set e vence os três seguintes. O número 9 mundial escreve seu nome na história e conquista o segundo Grand Slam de sua carreira. Ele sabe que nunca mais poderá fazer melhor. Uma semana depois, Daniel passa por uma cirurgia nas costas e acaba com sua temporada. O fim também é difícil para Bruno Silva. Ele tem uma nova chance para o cinturão, mas cai na provocação de seu adversário. É nocauteado logo no primeiro round. Ele ganha peso para subir para a categoria dos meio-médios. Contra um adversário de segunda linha, Bruno vai até o fim do combate, mas é dominado do início até o fim. Ele ainda tem duas lutas em seu contrato com o UFC, provavelmente as últimas.
Daniel e Bruno se reencontram mais uma vez no Rio de Janeiro, que sedia os Jogos Olímpicos de 2016. Como simples espectador, Bruno vibra com as medalhas de ouro no judô de Rafaela Silva, oriunda da favela da Cidade de Deus, e no boxe com Robson Conceição, que, como a mãe de Bruno, vem da Bahia. Daniel é relegado ao papel de torcedor depois de mais uma desistência, a mais dolorosa de sua carreira. Apaixonado pelo Brasil, ele se emociona com a atuação de Thiago Braz no salto com vara, ele se decepciona com a eliminação nas quartas de final de seu amigo Thomaz Belluci contra Rafael Nadal, torce pela vitória da seleção masculina de vôlei. Enquanto isso, Daniel e Bruno se encontram nos camarotes do Maracanã para a final de futebol entre Brasil e Alemanha.
— Qual é o seu palpite? pergunta Daniel a Bruno.
— 7×1, no mínimo. Ainda não superei a derrota na Copa.
— Hoje tem Neymar. Tô confiante com esse jogo.
— Pô, você lembra, Dani? Há 16 anos, a gente tava no Maraca com seu pai para um jogo do Vasco. Foi ali que você escolheu o tênis em vez do futebol.
— Parece que escolhi bem, né?
— Adorava assistir aos jogos com seu velho.
— Eu também. Também gostava quando a gente jogava futebol na praia ou no PPG. Bruninho, tenho pensado muito ultimamente. Estou perto do fim de minha carreira e quero desenvolver meu projeto social. Queria oferecer tênis para os garotos da favela, mas não tem como construir quadras.
— A gente mora no morro, irmão. Tá tudo inclinado.
— Pois é… Como anda seu projeto?
— De boa, tem muitos moleques que querem aprender jiu-jitsu. Ajuda a canalizar a energia deles, ensina respeito, os pais ficam felizes. Mas, como treino nos Estados Unidos, não tô lá quanto gostaria.
— Bruno, a imprensa me pediu tantas vezes de contar a nossa amizade que, me lembrando do início e de tudo que nos trouxe, me veio uma ideia. Quando me aposentar, quero ir além de um projeto social. Quero que a gente se associe para fundar uma escola particular. Aulas de manhã e atividades à tarde. A gente oferece o que gostava quando éramos crianças. Futebol, tênis, surfe, BJJ, atividades artísticas. Eu tenho garotos ricos que querem aprender tênis na minha academia, mas eu dizia que era só para os crias da favela. Podemos criar um sistema de apadrinhamento. Um garoto de Ipanema se matricula e isso abre uma vaga para um menino da favela.
— Uma escola particular, hein? Lembro que teu pai queria pagar para mim a escola também. Falei que ele podia continuar a pagar as aulas de BJJ, mas para a escola, não ia.
— Eu cuidaria da parte administrativa, você ficaria no campo.
— Sabe como me convencer, hein? sorri Bruno. É uma ideia top, Dani. Vou pensar.
No gramado do Maracanã, Neymar abre o placar com uma cobrança de falta sensacional e depois marca o pênalti decisivo. Pela primeira vez em sua história, o Brasil conquista o torneio de futebol dos Jogos Olímpicos. Bruno e Daniel se abraçam e imaginam um futuro depois da aposentadoria. No limite fisicamente por causa da lesão nas costas, Daniel Magalhães disputa um último Roland Garros. Ele alcança a terceira fase e perde em três sets secos, aplaudido de pé pela Quadra Philippe-Chatrier. Sua carreira profissional chegou ao fim. No mesmo dia, Bruno Silva está no card do UFC 212 no Rio de Janeiro. Ele perde por decisão unânime depois de três rounds nos quais, por respeito ao ex-campeão, o adversário segurou os golpes. Bruno nunca foi de trapacear. Sem sequer disputar a última luta prevista em seu contrato, encerra sua carreira, diante de sua torcida.
Quase cinco anos depois da aposentadoria, Daniel Magalhães e Bruno Silva se reencontram no Rio de Janeiro para o lançamento dos Jogos Escolares Brasileiros. Sob o impulso do governo Bolsonaro, os JEB retornam pela primeira vez desde 2004. Durante duas semanas, mais de 5 mil jovens de 12 a 14 anos se enfrentam em 17 modalidades diferentes. Daniel e Bruno fazem parte dos embaixadores, ao lado de vários campeões olímpicos como Serginho e Giba no vôlei, Thiago Braz e Maurren Maggi no atletismo ou ainda Arthur Zanetti e Rebeca Andrade na ginástica. Bruno e Daniel se abraçam com a cumplicidade de uma amizade que dura há 25 anos.
— Não achei que você fosse aceitar ser embaixador, confessa Bruno a Daniel.
— Lamento que não tem o tênis dentro dos 17 esportes, mas eu acredito na inclusão social pelo esporte. Acho importante estar lá.
— Quero dizer… Você não apoia muito o Jair Bolsonaro, né?
— Ah! Odeio o cara, você quer dizer. Eu voto na esquerda, mas guardo isso para mim. O país está muito dividido e nós somos ídolos nacionais. A gente se afastaria de uma parte de nossos fãs falando de política. E, além disso… Nossa escola Magalhães & Silva finalmente vai ser inaugurada. A gente sofreu bastante para conseguir e ainda precisa de uma ajudinha do governo para nossos projetos.
— É política, então?
— Pelo bem do Brasil, meu amigo. E você, vai votar no Bolsonaro em 2022?
— Se é contra Lula, sim, afirma Bruno. A primeira vez que eu votei, foi em 2002. Meu voto era Lula e tava muito feliz. Acreditei, agora, não aguento os casos de corrupção.
— Você acha que Bozo não é corrupto?
— A esquerda é muito mole com bandido. Eu cresci sem pai e com uma mãe alcoólatra e viciada. Conheci a violência da favela e nem por isso virei traficante. Hoje eu tenho filhos. Quero que estejam seguros.
— Você acha que Bolsonaro vai mudar alguma coisa? Faz três anos que está no poder. As ruas de Rio estão mais seguras?
— Rio? Rio é Rio… Bolsonaro acredita em Deus, na família, no valor do trabalho.
— Se você acha… Como dizem, com amigos, futebol, política e religião não se discutem.
— O que nos resta então, Dani? Pelo menos, nós somos vascaínos… O que eu queria dizer é que, eu também acredito na família. Até entrei em contato com meu pai. Faço isso para meus filhos, para eles conhecerem alguém do meu lado da família.
— Que bom, Bruninho. É uma coisa boa, imagino. Acabei de me mudar para a Barra da Tijuca. Rafaela quer convidar vocês com Sandra e as crianças para jantar.
— Dani, a gente vai se ver todos os dias na escola, quer se ver à noite também?
— Eu evitaria ver um cara tão feio como você, mas eu e a Sandra temos um pedido para te fazer.
— Eu sei, já… Rafaela falou com Sandra. Você quer que eu seja o padrinho do seu filho, é isso?
— As mulheres não sabem guardar segredo… sorri Daniel. É isso mesmo. O que cê acha?
— Claro, irmão. Se eu posso escolher o nome, tá certo.
— Nem pensar, Bruninho. A gente já tem o nome. Rafaela me pediu para ficar quieto, mas eu vou te contar mesmo assim.
— Viu, irmão. Você também não sabe guardar segredo. Qual é o nome?
— Leonardo.





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