Aproveito um momento mais tranquilo para escrever aqui, porque meus dias são bem cheios. Cheguei faz apenas 3 dias, mas tenho a impressão que faz 10. Estou apaixonada pela cidade. No domingo fomos na Feira da Glória e depois na praia. Tinha um show ao vivo e vimos o pôr do sol, também na praia, era tão bonito! Ontem, fomos no Cristo Redentor, tinha que fazer né. Era incrível também, a vista, o Cristo, tudo. Fizemos uma trilha, essa cidade é demais, tem tudo, o mar, a montanha, as ruas. Estávamos cansadíssimas com Lisa, mas achamos a motivação para ir num samba de rua em Lapa, e sem arrependimento! Disseram que era o lugar para ficar numa segunda-feira à noite e posso confirmar. Essa cidade tem uma energia incrível, sempre tem música e pessoas adoram fazer a festa. Muitos boys vem para me conquistar e não é desagradável, tem brasileiros muito bonitos e não são chatos, tenho mais dificuldade a lidar com turistas estrangeiros. Não pensava que ia ficar apaixonada tão rapidamente pelo Brasil.
Hoje, fizemos um tour numa favela e foi incrível também. Eu estava portanto absolutamente contra o fato de visitar uma favela. Antes de vir aqui, tinha pedido dicas para a Juliana, minha colega brasileira que morou no Rio e ela olhou para mim horrorizada, implorando de nunca ir numa favela, que podia tomar tiro apenas passando perto da favela. Não era isso que me incomodava, acho que se tem a possibilidade de fazer tours é porque é safe. Mas para mim, uma favela não se visita, não queria fazer voyeurismo, olhar a miséria das pessoas. Já vejo crianças sozinhas na rua em Copacabana ou Lapa e isso quebra meu coração. Então, favela, não tinha jeito, mas a Lisa insistiu. Ela tem dois sonhos aqui: visitar uma favela e ver Anitta. Ela me falou que o tour era ético, com um guia local e que ele financiava uma escola de surf para as crianças da Rocinha. Adoro o surf e é um pouco graças a Lisa que estou aqui, então finalmente aceitei.
Tínhamos encontro às 2 da tarde na saída do metrô. Alias, o metrô aqui é muito limpo, diferente do metrô de Paris. Esperamos 5 minutos e encontramos Guilherme, nosso guia. O primeiro contrato é legal e Guilherme fala um inglês impecável, tem um sotaque bem melhor que o meu. Esperamos ainda a chegada de um casal de alemães. Eles fazem o tour com a gente e a garota se chama Emma, como eu. Pegamos os mototáxis e o tour começa realmente aqui. O mototáxi anda muito rápido e zigue-zague entre os ônibus e outros motos. Chega de todo lugar e a caçadora de emoções que eu sou se diverte bastante. Infelizmente, o taxi-boy não fala inglês e a conversa é limitada, apenas entendeu que eu sou francesa e que moro em Paris. Depois de 5-10 minutos de subida, chegamos no topo da favela, com um mirante sensacional. Realmente, essa cidade é de tirar o fôlego, temos vista nos bairros de Ipanema e Copacabana, no Cristo, na Lagoa e na floresta.
Guilherme nos conta a história da favela, a maior da América latina. Ele explica que ela nasceu nos anos 1930 e que as pessoas chegaram pouco a pouco, vindo das regiões pobres do Brasil à procura de um emprego. A favela fica perto da Zona Sul rica e a maioria das pessoas aqui trabalham nos serviços, como táxis, porteiros, empregadas de limpeza ou garçons. Tem traficantes também, mas não é nem 1% da população, porém as mídias só falam sobre isso. Guilherme explica as regras da favela. É proibido roubar e as ruas são bem mais seguras que as de Copacabana. Podemos andar com o novo iPhone e nada vai acontecer. Ainda não era entusiasta essa manhã, mas minha opinião já começa a mudar e falo para mim que fiz bem de ir aqui.
Depois, descemos de pé para chegar num restaurante, agora com vista sobre toda a favela. Ela é gigantesca, não tinha percepção quando estava no mototáxi. Nem sei de qual lado chegamos. Em baixo da favela, tem o mar, e as pequenas casas de tijolos laranjas se juntam a todos esses contrastes que acho fascinante. Um pouco mais em baixo do restaurante, tem jovens que praticam capoeira e tocam música, sempre a música… Tem uma loja no restaurante e aproveito disso para fazer compras para minha família, melhor comprar aqui do que numa loja de Ipanema. Tiramos algumas fotos e nos descemos nas pequenas ruas. Bem que temos um guia, as ruas são muito pequenas e tem inumerosas, um verdadeiro labirinto! Teve um momento que o guia falou para guardar o celular na bolsa, chegávamos perto de um lugar onde podia ter traficantes, mas não tinha, ao menos não vi. Fizemos uma parada na frente de uma casa, na verdade a casa de Guilherme. Acho isso muito legal ele mostrar para nós a casa dele, tivemos sorte ao encontrar Guilherme como guia. Ele falou que foi criado nessa casa, ele mora com a sua mãe e quer construir um andar a mais para alugar o quarto ou fundar uma família. Parece que aqui funciona assim e os vizinhos não reclamam. A casa dele é bem limpa e tem tudo que precisa. Estou um pouco envergonhada de mim mesmo, tinha imaginado casas arruinadas, quase sem luz, mas na verdade tem tudo que precisa e entendo Guilherme quando ele fala que as pessoas moram aqui por escolha mesmo. Ele nos oferece um copo de água bem-visto neste calor e voltamos nas ruas. É cansativo, mas estou tão feliz de estar aqui.
Paramos num “beco”, o nome das pequenas ruas da favela, porque tem um outro grupo de turistas com um outro guia. Percebemos que o turismo ajuda a favela e os moradores nos recebem bem, com largos sorrisos. Tem nos becos uma sensação de tranquilidade surpreendente. Guilherme fala também sobre as dificuldades da favela, mostrando os fios elétricos, tem dezenas, até centenas no mesmo poste, é vertiginoso! Com o calor, os postes podem falhar, tem incêndios e quedas de energia. Os moradores não pagam luz e água, mas as quedas podem demorar vários dias. Continuamos descendo nos becos, ainda mais pequenos. É muito úmido e não tem a luz do dia, Guilherme nos explica que ainda tem casos de tuberculose e que o governo destruiu casas e realojou as famílias em casas novas para arejar as ruas. Ele fala também sobre as dificuldades de alguns moradores para se mover ou se mobiliar, parece de fato impossível transportar uma geladeira nesses becos. Felizmente, tem uma solidariedade entre os moradores e sempre tem alguém para ajudar quem precisa, deveríamos se inspirar disso na França…
E numa rua, vi um traficante com um fuzil enorme, que a gente normalmente só vê nos filmes. Fiquei chocada, o traficante era muito jovem e as pessoas passavam ao seu lado, sem se preocupar, como se isso era normal… Tive uma descarga de adrenalina e não consegui não olhar de novo para o traficante. Ele não parecia se incomodar disso, ao contrário, se divertia. Muitas coisas passavam na minha cabeça e nem sabia mais o que pensar disso. Finalmente, acho que foi como Guilherme explicou, é só um lado da favela. Chegamos na escola de surf, e Nando, o diretor da escola, que é um amigo do Guilherme, explica para nós como funciona. As crianças têm escola até o início da tarde e depois ficam livres. Muitas vezes, ficam sozinhos em casa e desse jeito vão para as ruas. Alguns, por falta de dinheiro ou suporte emocional, vão para o tráfico de drogas. O projeto social de Nando oferece aulas de reforço escolar e depois as crianças aprendem a surfar. O Nando é muito inspirador e felizmente tem pessoas como ele para as crianças da favela.
A aula de esforço escolar se termina e encontramos as crianças na laje da escola, com vista na Rocinha. Já descemos bem em comparação a chegada de mototáxi! As crianças parecem felizes de ver “gringas”, o nome que ouvimos em todos os lugares do Rio para chamar os estrangeiros. Uma menina de 8 anos se aproxima de mim e me dá espontaneamente um abraço. Ela é tão linda e mesmo sem falar o mesmo idioma, a gente consegue se entender, apenas com o olhar. Ainda passemos um momento com as crianças da escola e meu olhar se perde na parte baixa da favela e no mar infinito. Olhando a paisagem, tenho uma sensação de bem-estar, quase de abençoamento. Tive um ano difícil, me separei definitivamente de Guillaume e mesmo que fosse minha escolha, ainda chorei muito por causa dele. Tive meses muito difícil e é no outro lado do mundo que me sinto bem comigo mesmo, orgulhosa de mim e de meu emprego. Guillaume sempre falava que o direito da família era para os advogados falidos, não suficientemente inteligentes para trabalhar no direito empresarial, mas estou fazendo o que eu amo e ouvindo Guilherme (até me diverto com a semelhança dos nomes), percebo a importância do que eu faço, ajudando famílias destruídas. Alguns meses atrás, não teria ido ao outro lado do mundo, não teria visitado uma favela, mas evoluí muito. Tinha dias de folga a tirar antes do fim do ano e quando a Lisa me convidou para essa viagem, não ouvi mais meu medo, ousei e fui, e já é uma das melhores decisões de minha vida. Hoje, sou feliz.
Nós deixamos finalmente a escola e voltamos ao metrô em baixo da Rocinha, mas a Lisa, e também eu, tem vontade de ficar um pouco aqui. Guilherme dá a dica de um bar na parte baixa da favela e ficamos um pouco para tomar um drink num bar de fato muito simpático. Lisa adorou o tour também e nós trocamos sentimentos e pensamentos, ainda impressionadas pela experiência. Ainda estou no início da viagem, mas já tenho certeza que o tour na Rocinha será um dos momentos mais fortes da viagem. Apenas me arrependo de não falar português, gostaria de comunicar com a Maria, a garota que tocou meu coração. Está decidido, ano que vem, aprendo o português!






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