Conto #10: A pedra e o grão de areia

Sete horas, o dia nasce em Ipanema. Francisco calça seus tênis, veste um short curto demais e uma regata para sua caminhada matinal. Todos os dias, ele caminha uma hora na orla da praia para esvaziar a cabeça. Sua esposa tem o mal de Alzheimer. Sessenta e dois anos de amor que se apagam como uma pegada na areia ao ritmo das ondas. Francisco ainda está em forma, no corpo e na mente. Ele cuida de sua mulher todos os dias, do levantar até o deitar, da noite até o amanhecer. Sua filha chega uma hora antes do trabalho para aliviá-lo nas tarefas do cotidiano.

Francisco então sai para caminhar na orla, do Posto 9 até a estátua de Carlos Drummond de Andrade. Ele caminha e pensa, se move e sofre. Ele se senta em um banco, seu coração se aperta. As ondas passam e acompanham suas lágrimas, às vezes um sorriso nostálgico. Ele também não reconhece mais sua Elza, sua gentileza e bondade sufocadas pelo Alzheimer. Chico carrega seu luto branco em silêncio, no meio dos desconhecidos. Ele não é doente, mas a doença nunca o deixa em paz.

A praia ganha vida e o termômetro já ultrapassa os 35 graus quando Gregore chega a Ipanema. Ele agradece a Deus, de mais um dia ensolarado, de ter chegado vivo. Dois ônibus lotados para pegar, uma hora e meia de transporte, pensando apenas em sua filha ou quase. Faz três anos que Gregore é um vendedor ambulante, percorrendo as praias cariocas. Ele deixou um emprego de carteira assinada, não muito bem pago, em um escritório com ar condicionado, perto da casa. Três anos que o diagnóstico caiu, que a síndrome de Rett se tornou uma palavra conhecida, que faz tremer. O tratamento é caro, então Gregore trabalha seis dias por semana, muitas vezes sete. Ele se agarra à vida, como os grãos de areia entre os dedos do pé. Sua filha perdeu a fala e a motricidade, mas nunca seu sorriso. Gregore não pode perder o dele.

— Caipirinha! Limão, maracujá, morango! Caipirinha com gelo!

Gregore se aproxima de um grupo de três gringos, na sombra de um guarda-sol.

— Satisfação, David Beckham.

Alessandro sorri. David Beckham foi um grande jogador do clube do seu coração, o AC Milan. Seu ídolo é o brasileiro Kaká. Foi ele que lhe deu a vontade de conhecer um dia o Brasil. Ele finalmente convenceu seus amigos Massimo e Marco a acompanhá-lo. Dos três amigos milaneses, tem só um rossonero, mas agora tem três rubro-negros. Ontem, eles foram ao Maracanã assistir a um jogo do Flamengo, no meio da torcida. Eles ainda têm os cantos na cabeça e estrelas nos olhos. É apenas o começo das férias, mas já são as mais marcantes da vida deles. Eles querem aproveitar de todo o Rio, as mulheres e a festa, das caminhadas e do futebol, da vida e da praia.

— É de onde gringo? Argentina?

— No, siamo italiani. Da Milano.

— Buongiorno meu amico! Me piace muito a Italia, entusiasma-se Gregore em um italiano aproximativo.

Gregore continua conversando com o trio italiano, falando de mulheres e futebol. Depois de uma última dica sobre a roda de samba na Pedra do Sal, ele vende três caipirinhas por 35 reais. Alessandro agradece em português, bebe sua caipirinha e olha mais uma vez no seu celular os vídeos do jogo da véspera. Gregore segue seu caminho.

— Caipirinha! Limão, maracujá, morango! Caipirinha com gelo!

O ambulante passa na frente de um quarteto de brasileiros. Entre folgas, desemprego e turno de noite, a manhã de segunda-feira é o único momento que têm em comum. Eles vêm da favela vizinha de Pavão-Pavãozinho e desceram à praia para jogar altinha, trocando passes aéreos sem deixar a bola tocar o chão. Olham apenas a bola e não se preocupam com mais nada. Gustavo não pensa na mãe doente, Caio esquece da conta imprevista de ontem, Roxo se livra do patrão babaca, Vitinho deixa para trás sua passagem pela prisão.

Depois de uma hora jogando a bola para o alto e queimando os olhos, o quarteto faz uma pausa. Gustavo propõe subir ao PPG e almoçar na pensão da dona Zélia. Caio recusa, tem que salvar cada real até o fim do mês. Gustavo insiste e convida seus três amigos. Caio aceita, Vitinho recusa. Ele quer ficar na praia, ele já identificou os gringos desligados e os pertences largados. Na outra direção, Gregore passa de novo diante dele e se aproxima de um casal de americanos. Em três anos de praia no Rio, tem coisa que se percebe imediatamente.

— Hi, Bruce Willis! Want some caipirinha my friend?

Gregore se vira com um inglês mais que suficiente para conseguir alguns sorrisos e vendas extras.

— Where you from, my friend? Texas?

— Phoenix, Arizona.

— Oh yeah, Phoenix Suns, não é? Steve Nash!

— Yeah, but I root for the Cardinals, you know.

— Que é isso?

— Football!

— NFL? Football is with feet amigo! Futebol, Vasco! You know Vasco? Meu time!

Gregore ainda fala de esportes, aconselha o americano a caprichar no protetor solar, zomba o Trump e chama Lula de ladrão. Antes de o gelo derreter, ele vende uma caipirinha ao seu novo amigo.

— 40 dollars, my friend! É joke, 40 reais.

Gregore retoma sua marcha e seus esforços. Alessandro vasculha energicamente sua bolsa, o pânico se misturando ao desespero. Ele esvazia a mochila toda, sacode a toalha, bate nos bolsos vazios. O milanês chega a pensar que seus amigos fizeram uma brincadeira, mas ele finalmente tem que aceitar: seu celular sumiu. De repente, ele lembra que cinco minutos antes, um cara chegou perto, falou alguma coisa incompreensível, e saiu rápido. Alessandro olha ao redor na praia, mas era antes que deveria ter sido vigilante.

Vitinho já voltou em direção ao Pavão-Pavãozinho, com o celular do italiano na mão. Os traficantes da favela já o avisaram de não roubar, eles não querem ver a polícia chegar por causa de um celular furtado. Vitinho não quer saber, ele não liga para isso. Hoje, ele se sai bem, amanhã será linchado por uma multidão enfurecida. Alessandro procura uma última vez na sua mochila, com a cara triste. Seu celular não valia quase nada, ele tinha levado um aparelho velho, temendo justamente um roubo. Mas não era conectado à nuvem, Alessandro realiza que suas fotos e vídeos do Maracanã estão perdidos para sempre. As férias perfeitas não são mais, Ale deixa a praia sem dizer uma palavra.

Douglas é acordado de seu cochilo por um choro. Uma menininha está em lágrimas, perdida no meio da praia. Douglas se abaixa na altura dela, tenta acalmá-la e começa a bater palmas. As pessoas ao redor também aplaudem, Douglas coloca a menina nos ombros, e ela já recupera seu sorriso. Em poucos instantes, a mamãe reencontra a filha e recupera a própria respiração. Douglas sorri, se vira e reencontra Caetano com o olhar. Seu sorriso ganha ainda mais intensidade. Caetano também sorri, os óculos escuros impedem de ver o quanto seus olhos brilham de amor, de cansaço também.

Caetano chegou cedo esta manhã, vindo de São Paulo. Dez dias que sua vida mudou com um simples match em um app de namoro. Há apenas um ano que ele aceitou sua atração por homens. Caiu sobre ele ao mesmo tempo que o amor. Caetano já amou um homem sem beijá-lo. Já transou com outro sem amá-lo. Caetano fez a metade de seu coming-out. Sua mãe sabe e não liga, é seu filho, não importa o que aconteça. Seu pai não sabe ou não quer saber. Ele não ficaria bravo, teria vergonha. Para Caetano, é pior. Depois de um almoço de família no domingo e palavras que machucam, ele precisou escapar, encontrar finalmente o Douglas.

Douglas é um carioca da gema de 26 anos. Ele lida bem com sua orientação sexual e sua família aceita, os que não, ele os mandam para o inferno. Ele gosta de Caetano e quer o conhecer mais. Eles passaram o dia inteiro no Posto 8 de Ipanema, falando de família e espiritualidade, de música e ícones gays, de fofocas e telenovelas. Caetano se sente bem, ele se levanta e ajusta mais uma vez o guarda-sol, o sol se aproximando do crepúsculo.

— Vem comigo, vou te mostrar uma coisa.

Douglas pega Caetano pela mão. Eles caminham pela praia, sobem algumas pedras para chegar até a Pedra do Arpoador, ponto de vista privilegiado para o pôr de sol. Turistas e brasileiros já são numerosos, os vendedores ambulantes também.

— Caipirinha! Limão, maracujá, morango! Caipirinha com gelo!

Douglas e Caetano acham um pedacinho de paraíso, no meio de desconhecidos. Caetano tem as pálpebras pesadas como a pedra, ele teme a volta para São Paulo essa noite já. Douglas aproveite do espetáculo, ao mesmo tempo único e de todos os dias. Sente-se gigante e minúsculo, uma estrela no universo, um grão de areia na praia. O sol mergulha nas montanhas cariocas, Douglas mergulha seu olhar no de Caetano. Enfim, eles se beijam, começando talvez uma nova história de amor, quem sabe uma nova vida. O Rio se deita, a Pedra do Arpoador aplaude. Foi um belo dia.

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