Na Rocinha, a maior favela da América do Sul, Gabriel nunca se separa de sua bola de futebol. Aos 15 anos de idade, sonha em ser jogador profissional, como a maioria de seus colegas. De manhã, ele vai à escola sonhando com futebol, na tarde ele treina, no fim da tarde ele joga com seus amigos na rua, na noite adormece pensando no futebol. Gabriel é o camisa 10 do time do PPZ de Cachopa. O clube foi fundado por Pontinho, um jogador profissional que cresceu na Rocinha, no bairro da Cachopa. Ele jogou na Bulgária, na Suíça e no Japão antes de voltar ao Rio de Janeiro. Passou pelo Bangu e Olaria e ficou sem clube para o final da temporada de 2004.
Naquele mesmo período, Rocinha vivia mais uma vez sob os tiros dos traficantes e da polícia. Diego e Diogo, os dois traficantes mais poderosos, colocavam fogo e sangue na favela, impedindo os morados de trabalhar, as crianças de brincar na rua. Pontinho se lembrava de dez anos antes, quando ainda era adolescente. Diego e Diogo já viviam em guerra, a morte podia chegar no final de cada beco. Na época já, a violência chegava sem avisar.
Pontinha sentia que devia fazer alguma coisa. Graças a Deus, que ele tinha colocado no centro de sua vida, o ex-jogador de Lugano e Kashima tinha sucedido na vida, tinha um futuro. Agora, Deus lhe dava uma missão: ajudar as crianças da Rocinha. Aproveitou do tempo livre para fundar um time de futebol, que chamou Projeto Pontinho & Zebras de Cachopa. No futebol, uma “zebra” significa uma vitória inesperada, de um time não favorito. Pontinho queria ajudar jovens predestinados aos empregos mal pagos na melhor, para a criminalidade no pior, a vencer no campo, depois na vida.
Lenda viva da Rocinha, Pontinho logo encontrou crianças motivadas para ingressar o time, que não parava de crescer. Fazia dois anos já que ele cumpria cada dia a vontade de Deus, ao mesmo tempo que ajudava a comunidade, formava jogadores e educava crianças. O nome de PPZ também lhe permitia de homenagear seus amigos de infância, Piraquê, Pombo e Zeca, que tinham perdido o futuro no tráfico, de um jeito ou um outro. Na Rocinha como em outros lugares, as balas não tem remetentes, apenas destinatários.
Em 2006, no campinho duro da Cachopa, no meio das zebras, Gabriel dribla um defensor, aplica uma caneta e tromba com o último adversário, Sandro. Mas Gabriel é um craque, recupera a bola, consegue outra caneta no camisa 4 e tira onda.
— Toma aí, otário.
Sandro, zagueiro sem talento que já ultrapassa o metro 75 aos 14 anos, volta e chega mais duro nos pés do camisa 10, fazendo o cair no chão.
— Toma aí, otário.
Já vendo o clima esquentar, Pontinho apita uma falta.
— Mas nem foi falta, tio! Caiu sozinho!
Gabriel se levanta, pega a bola de novo e avança em cima de Sandro com a vontade de humilhá-lo. Multiplica os dribles com a sola e consegue a caneta tão desejada. Mais uma vez, ele zoa sua vítima preferida.
— Pega aí, filho da puta.
Dessa vez, Sandro não procura a bola nem as pernas do jovem craque. Sem pensar, sem avisar, ele manda diretamente um soco na cara, provocando uma briga logo contida por Pontinho.
— Vai para casa Sandro, acabou o treino pra você.
— Ele me xingou de filho da puta!
— Sabe a regra, você briga, tá fora.
— Isso aí, meto o pé!
Pontinho deixa a arbitragem para o jovem Carlos e corre atrás o adolescente brigador nos becos da Cachopa.
— Sandro!
— Porra! Ele me xinga de filho de puta e eu que você manda fora.
— Vou falar com ele também, mas você não pode brigar aqui. Na escola, se alguém te provoca, briga também?
O menino perdido não diz mais uma palavra. Ele não voltou na escola como ele portanto tinha prometido ao seu professor.
— Cê não vai pra a escola, te acho um emprego de ajudante de pedreiro. Fica dois dias e também não aparece mais.
— Pagava nada! O patrão sempre pegava no meu pé!
Pontinho sabia disso. Ele tinha pedido para seu amigo de contratar Sandro na construção e de lhe dar disciplina. Não precisava pagar para jogar no PPZ de Cachopa, mas era obrigatório de ir na escola e apresentar o boletim escolar. Sandro sempre foi um dos melhores alunos. Até o ano passado, quando as notas começaram a cair. Agora, nem ia mais para a escola.
— Você é melhor com uma caneta na mão que uma espátula. O que você vai fazer se você não estuda e não trabalha? – pergunta o pai substituto.
— Vou entrar pro tráfico, vou ganhar dinheiro.
— Neco não pega menores de 16 anos.
— Eu sei. Vou espera. Vou virar traficante.
— Feito como você é, você não vai sobreviver mais de dois anos no crime.
O olhar triste do garoto se perde.
— Tem que voltar pra escola, moleque. Você é inteligente, vai se adaptar. Sabe como é aqui, tem que ir na escola ou fazer curso para ficar no projeto.
— Então tô fora!
Sandro vira as costas para seu mentor e sobe os becos da Rocinha, em direção à Dionéia, outro bairro da favela. Ele passa na frente dos traficantes armados e chega ao Heimat, o projeto de dona Anja. As crianças a chamam “tia Ana”, seu nome se pronuncia Anya em alemão e ela parece realmente ser uma anja. Era predestinada para Rio de Janeiro, onde chegou no final dos anos 1990. Oriunda de Hamburgo, filha de um estivador e uma operária, viveu os anos dourados da década de 1960, o rock e os Beatles, o distrito da luz vermelha e a liberdade. Também conheceu o declínio de seu bairro de Sankt Pauli e da atividade portuária, a chegada da heroína, da AIDS e da prostituição de rua, o que a levou a se investir no trabalho humanitário.
Precisando de férias, apaixonada pela praia, música e o futebol, Anja partiu para Rio de Janeiro. Numa roda de samba, seu olhar se dirigiu para um músico negro, seu coração disparou num ritmo mais elevado ainda que o samba. Esperou até o final do show para falar com ele, mas os olhares trocados a cada fim de música já diziam tudo. O amor também chega sem avisar.
A cria de Sankt Pauli prolongou suas férias no Rio de Janeiro, descobrindo a favela da Rocinha, onde morava seu Augusto. Logo se deu bem com os moradores, se sentia um pouco em casa, o bairro lembrava aquele de sua infância. A gringa tinha o coração dividido entre duas cidades, a mente torturada entre dois países, o corpo esquartejado entre seu trabalho social em Hamburgo e seu romance no RJ, entre heimweh e saudade. Um dia, passeava com Augusto na Rocinha, no bairro do Valão. Num pontinho em cima do esgoto a céu aberto, ela viu prostitutas esperando clientes. Algumas tinham 13 ou 14 anos. O coração da hamburguense se partiu mais uma vez, definitivamente se virou para a favela.
Anja passou a ajudar crianças da Rocinha e fundou um projeto social na Dionéia, onde agora morava com seu marido. A associação oferecia reforço escolar e alfabetização, cursos artesanais e de fotografia, aulas de desenho e dança. Tia Ana chamou o lugar Heimat, que significa em alemão a terra natal e a casa de infância, porque ele queria que as crianças se sentissem como em casa. Para muitas crianças, era até melhor que a casa. Sandro chega ao local de Heimat, um pouco adiantado para a aula de inglês oferecida por um voluntário. Anja lhe recebe com um abraço, cheio de amor e carinho de uma mãe.
— Sandro! Quer comer alguma coisa? Pega um lanche.
O moleque brigador e tão sensível reencontra seu sorriso tímido, reforçado pela presença de um desconhecido ao lado da alemã de coração carioca. Sandro entrou no Heimat quando tinha 9 anos para a aula de reforço escolar. Aluno brilhante, ele não precisava, mas antes de cada aula, tinha comida no local. “Não dá para pensar com a barriga vazia”, explica até hoje tia Ana, com um sotaque alemão que some ao longo do tempo.
Sandro cresceu sem pais, com ferimentos invisíveis. Diego o recolheu e o deixou com uma mulher que o detestava. Odiava ter de cuidar dele, pegava o dinheiro enviado por Diego e gastava em unhas, roupas e joias. Mandava o menino órfão fazer compras e trancava a porta a noite toda. Quando o chefe do tráfico na Rocinha morreu, ela definitivamente jogou Sandro para fora. Ele cresceu na rua, seus ferimentos tornando-se visíveis no fundo de seus olhos, às vezes na sua cara, a violência chega sem avisar.
— Cê chegou cedo San’. Brigou de novo no PPZ? – pergunta Gilda.
Gilda é outra adolescente que passa as tardes no Heimat. Cresceu com o calor e o amor de uma família monoparental. Sua mãe carrega um medo mais pesado que os outros: perder seus filhos para o tráfico, como perdeu seus irmãos quando era mais jovem. Gilda participa de quase todas as aulas do Heimat, até servindo de auxilia para os mais jovens. Estuda inglês, escreve no jornal da ONG ou mexe com cerâmica, às vezes dança. Porém, é no desenho que ela encontrou sua paixão e sua vocação. Caneta na mão, ela quer ser arquiteta e desenhar casas, de graça para os moradores da Rocinha e bem caro para os ricos de Leblon.
— Na escola você briga também? – continua Gilda, diante do silêncio de seu amigo.
O cria dos becos faz careta. Ele sabe que ele não vai mais à escola e sabe que Gilda sabe. É seu jeito de o motivar, mas a escola virou um inferno. Sandro tem 14 anos, a hora das escolhas. Ele não sabe se deve voltar a estudar, seguir na construção, trabalhar para Neco no tráfico ou fazer outra coisa de sua vida. Tia Ana tem razão, é difícil de pensar com a barriga vazia.
Quando era criança, o menino sempre teve ajuda de moradores da Rocinha para comer ou ter um pouco de dinheiro. Agora, percebe que a generosidade diminui com o tempo, que um adolescente sozinho continua sozinho.
— Como foi com seu Ademir? – continua a incansável sobrinha de Pombo.
— Pesado. Carreguei sacos de cimento mais pesados que eu.
— Tem que insistir San’. Um dia, a gente trabalha junto. Eu vou desenhar casas e você vai as construir.
— Quem é aquele cara? – pergunta Sandro, para mudar de conversa.
A anja de Dionéia estava acompanhada de um homem à quem mostrava o local e as atividades. O projeto Heimat se beneficiava da Lei Rouanet, que permitia uma redução fiscal em caso de doações. Anja recebia doações pontuais, mas apenas uma contribuição regular garantia planejamento e continuidade. Ela tinha um encontro com um homem que tinha lançado um cibercafé na Rocinha. Fazia alguns anos que as lan houses se multiplicavam na favela. Os jovens vinham gastar um real por hora para conversar no Orkut ou MSN, jogar Counter-Strike ou outros games online, às vezes apenas bater um papo com os amigos.
Com o apoio mensal, Fernando podia fazer a propaganda de seu cibercafé para os alunos do Heimat. Ele também instalava ou consertava computadores em casa e podia ficar conhecido na favela. Graças ao crescimento econômico dos anos Lula, cada vez mais famílias da classe média-baixa da Rocinha compravam seu próprio computador. Anja torcia com todo seu coração uma reeleição de Lula no final do ano, mais do que uma conquista da Seleção de Ronaldo e Ronaldinho na Copa de 2006. Até porque nesse assunto, a loira com olhos expressivos seguia 100% alemã, ainda mais para uma Copa organizada no seu pais.
— Fernando! O senhor vai precisar de ajuda na lan house?
Gilda interrompe a conversa dos adultos, com uma ideia na cabeça.
— Meu amigo Sandro aqui é fera com os computadores.
— Verdade, acrescenta a fundadora do Heimat. Quando a gente recebeu o computador no local, foi Sandro quem programou. Eu entendo nada disso…
— Quando o senhor vai viajar, vai precisar de alguém na lan house para arrumar o material. San’ pode trabalhar para o senhor.
Fernando sorri e faz algumas perguntas ao jovem sobre seu interesse em informática. Ele não se surpreende ao saber que Sandro aprendeu sozinho para mexer os computadores. Sua trajetória lembra sua própria, embora na verdade ignora tudo do percurso do moleque de Cachopa. Sandro pega uma caneta e anota seu contato para o informático. Ele se fez sozinho, mas precisou de uma ajudinha da amiga Gilda e do Heimat para conectar os mundos, ter novos projetos, perceber uma nova vida. A esperança também chega sem avisar.






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