3 da manhã no Rio de Janeiro, a cidade não dorme, ela ronrona. Simon e Paul tinham marcado um encontro na entrada da favela de Vidigal para a trilha do Dois Irmãos. Paul chegou há um mês no Rio de Janeiro para fazer um curso na faculdade de administração. Anotou as coisas para fazer no Rio e essa trilha fazia parte, de preferência de noite para assistir o nascer do sol. Sem colega de turma motivado para a fazer no meio da noite, ele deixou uma mensagem num grupo Facebook de franceses no RJ para achar co-caminhantes. Simon o mandou um privado.
Simon e Paul se conhecem bem, são irmãos. Na verdade, não, ele não se conhecem tão bem, até nem se conhecem. Eles têm 13 anos de diferença, Simon saiu da casa quando tinha 18 anos, Paul tem quase nenhuma lembrança. Desde então, Simon morou em todo lugar, menos em casa. Voltou algumas vezes, era pesado, e não voltou mais. A última vez que se viram, Paul ainda não estava no colégio, mesmo pulando uma série na escola. Simon é um estrangeiro para Paul, eles não são irmãos na vida e a mensagem deixada no Facebook o permitiu de ver que não são amigos na vida virtual. Mas Simon o mandou um privado e como Paul queria fazer essa trilha, marcaram encontro.
Tinham marcado um encontro às 3 da manhã, Paul chega na hora, Simon está atrasado. Ele assistiu a uma roda de samba na favela da Rocinha, bebeu e aproveitou da música a noite toda. Pegou a última cerveja, um mototáxi e fez o pequeno caminho até Vidigal. Paul adotou uma estratégia completamente diferente. Foi dormir às 21:30 e ligou o despertador para 1 da manhã, tempo suficiente para ter dois ciclos de sono completos. Não tinha antecipado as perguntas na cabeça, a apreensão do encontro e a insônia que chegava. Depois de duas horas de perguntas sem respostas, se levantou e estudou suas anotações de aula. Tocou piano no salão da residência de estudantes onde morava, abençoando a época dos pianos digitais e do áudio no fone de ouvido. Finalmente, pegou um Uber de Ipanema até a entrada do Vidigal.
Paul está no horário e espera Simon sentado num banco. Cada minuto que passa esgota sua paciência, sobrecarrega seu cansaço. Finalmente Simon chega, com a tranquilidade de quem está à frente. Apesar do sorriso embriagado de Simon, o aperto de mão é tão frio que a noite fresca de Rio. Sem se apressar, Simon chama dois mototáxis para a subida de Vidigal. Depois de um mês no RJ, Paul está acostumado aos mototáxis enérgicos da cidade e seu ótimo nível de espanhol lhe permite de comunicar facilmente em português. Porém, a subida da favela se faz essa vez com apenas o barulho do motor da moto. Nem o mototáxi nem Paul dizem uma palavra, até a chegada ao topo de Vidigal. Paul paga os 10 reais e Simon chega logo depois, sorriso de orelha a orelha, dedos dos pés nos chinelos.
— Está por aqui? pergunta Paul ao mostrar o outro lado do campo de futebol.
— Calma aí, não vou subir de chinelo, responde Simon. Alguém tá me trazendo tênis, moro lá em baixo.
Paul pensava que tinha chegado até o fim de sua paciência, mas vai ter que esperar ainda mais, na obscuridade e num frio que ele não conhecia no Rio. Ele suspira interiormente e sofre ainda mais profundamente, já se arrependo de ter vindo.
— Você mora onde? pergunta Simon para quebrar o silêncio cada vez mais pesado.
— Em Ipanema, numa residência com outros estudantes estrangeiros, apenas responde Paul.
— Tá legal.
— E você? pergunta Paul após um tempo estimado entre 5 segundos e 10 minutos.
— Aqui.
— Ah sim, verdade.
Paul se encontra na mesma situação que estava na entrada de Vidigal, só que não está num banco mas de pé, não está sozinho mas com Simon, ou seja, ainda mais sozinho. É a vez dele de quebrar o silêncio, cada frase apenas adia o silêncio para o fixar mais intensamente.
— O céu estava lindo hoje.
— Sim. Melhor quando faz sol.
— Sim.
— Você foi na praia?
— Não. E você?
— Também não.
Finalmente, uma mulher chega de moto e dá para Simon os tênis tão esperados. Paul teria até vontade de a beijar para lhe agradecer de pôr fim a essa espera sem fim, esse tédio mortal, mas fica com raiva quando vê que a mulher também trouxe uma lata de cerveja. Os dois irmãos finalmente começam a trilha e o martírio parece apenas começar. O cansaço de Paul definitivamente se transforma em frustração. Bom desportista, Paul não tem nenhum problema para subir o morro. É mais difícil para Simon, ele tem um pouco de excesso de peso e sua muito. Regularmente, precisa marcar um tempo, sua falta de folego abafa Paul, sua sede de cerveja seca a boca de Paul. Já na chegada em baixo de Vidigal, o Pequeno Paulinho viu que o Grande Sims estava bêbado, teve flashbacks de sua infância na cabeça, Simon que não ligava para nada, desafiando um pai autoritário que Paul endeusava.
Depois de uma hora dolorosa, a dupla chegou no topo do morro. A noite ainda estava negra, o sol nem ameaçava de nascer. Simon se senta, expira, arruma sua lata de cerveja já vazia na sua mochila. Ele tira um saco de maconha e bola um baseado.
— Você vai fumar? pergunta Paul, cada vez mais aborrecido.
— Sim, tenho saudade da maconha de Amsterdam, mas ainda tá bom assim. Pode crer, quando você vai ver o espetáculo, você vai querer ficar bolado também.
— Não sou um drogado, responde com frieza Paul.
Simon acende o baseado na frente de Paul, cada vez mais exasperado. A frustração definitivamente se transforma em raiva. Paul tem a impressão que ele é o mais velho dos irmãos, o exemplo da família. Desde sempre, o pai o obriga a ter sucesso, em tudo que ele faz, para ele e para compensar os erros do suposto irmão mais velho. Escola, piano, xadrez, badmínton, Paul sempre teve de ter sucesso, com a pressão de dois homens apenas nas costas dele. Ele foi o único irmão mais velho de sua irmã mais nova, o único a florescer o túmulo de sua mãe, quando Simon percorria o mundo, esquecendo todo mundo.
— Você não liga para nada, finalmente lança Paul, que não podia mais conter toda a raiva dentro dele.
— O quê?
— Você fuma sua droga, você incomoda todo mundo.
— O quê que tá falando? Olha o espaço que tem, não tem ninguém perto de nós. Te atrapalha?
— Você chega atrasado, nem pede desculpas, continua a culpar Paul.
— Atraso de quê? Olha, ainda é a noite, a gente não perdeu nada. Você queria chegar cedo pra quê?
— Chegamos em cima e ainda tem que te esperar, basta. Sabe, às vezes acho que papai exagera com você, mas na verdade, ele tem razão, você não presta para nada.
Simon aguarda um momento, mas surpreso que irritado pela opinião de Paul.
— Olha moleque, você é ninguém para me dizer se consegui na vida ou não. Eu sei o que o pai fala, faz tempo que não ligo nem um pouco, estou muito bem com minha vida.
— Claro, você sempre fugiu de suas responsabilidades, me deixou sozinho com papai e Elena. Tenho de lidar com os gritos de papai, a crise da adolescência de Elena. Sempre devo ter sucesso em tudo, não posso fracassar, se não papai vai dizer que vou acabar como você, fazendo nada da vida. Levava sermão e onde você estava nem Deus sabe. Você nem voltou para o enterro de mamãe.
— Fiquei triste quando soube que ela tinha morrido, mas não era minha mãe, eu morava no Canadá, eu ia fazer o quê?
— O quê?
— Ia fazer o quê?
— Não, antes… Mamãe não era sua mãe?
— Ele nunca te falou?
— Não…
Simon aguarda mais um momento, para melhor organizar seus pensamentos. A raiva de Paul se dissipou, como a noite do RJ se dissipa lentamente, deixando aparacer um pouco de luz e de cores no céu.
— Olha Paulinho, você é um adulto agora, um rapaz bonitinho. Sua mãe não é minha mãe, morei em Moscou, mas não sou russo. Minha mãe era música também, eu tinha 6 anos quando ela pediu divórcio. Ele falou que ele ia a destruir e assim ele fez. Falava que era louca, pediu a guarda unilateral e o juiz ficou de seu lado. Eu queria morar com minha mãe mas minha opinião não importava. Ele era rico para caralho e deixou nada para ela, ela não aguentou. Ela se jogou do 8o andar quando eu tinha 9 anos. Eu sei que é por causa dele.
A luz nascente deixa ver uma lágrima cair no rosto de Paul. Ele pensa de novo em sua própria mãe, cuja ele é agora o único filho, também finada quando ele tinha 10 anos, afogada por um cocktail álcool – remédios um pouco mais forte que todos os outros. Ele pensa de novo nos dez anos seguintes, às críticas pesadas e aos elogios leves do pai, tingidos de ironia ou perfeccionismo dependendo dos dias. Ele não lhe carregou responsabilidade no falecimento da mãe ou no seu próprio mal-estar, ele apenas transpõe no céu avermelhado de Rio de Janeiro o filme de sua própria vida.
— Sabe, os grandes discursos sobre como conseguir na vida, eu os tive também, parece adivinhar Simon. Você pode errar Paul, todo mundo erra na sua vida. Os únicos que nunca fracassam são os que têm ego demais para o admitir. Papai é duas vezes viúvo e ainda acha que chorar é para os fracos. Pode ser um violonista famoso, professor no Conservatório, mas para mim, não é isso ter sucesso na vida. Elena não é numa crise da adolescência, é uma garota que se torna mulher e que não sabe a quem recorrer para aliviar sua aflição.
— Você conhece Elena?
— Um pouco sim. Ela me adicionou no Facebook, a gente fala de vez em quando.
Paul não fala nada, refugiando-se silenciosamente na paisagem celeste de Rio. O céu mudou de novo, o vermelho ficou laranja, o oceano se separa da terra, o Cristo Redentor aparece.
— Fiz bem de sair Paul, continua Simon. Quando o pai me falou diretamente nos olhos que ele se arrependia de ter um filho como eu, entendi que não importava o que farei, sempre será errado. Saí, vivi em Moscou, Quebeque, fui na África, no Chile, eu vivi muitas coisas. Hoje vivo da música, faço que eu gosto de fazer, tenho amigos, namorada. É isso para mim conseguir na vida. Meu único arrependimento é de não ter conhecido você e Elena.
— Você vive da música?
— Eu dou shows em bares, mas não dá muito certo. Toco MPB, é música popular brasileira, mas pessoas não querem ouvir mais isso. Eu dou aulas de violão, paga bem, ao menos é suficiente para mim.
— Você me diria o próximo show que você vai fazer?
— Com certeza. Olha o céu, como tá lindo.
Os dois irmãos assistam Rio acordar, os prédios se revelar, as ruas esquentar. Eles se maravilham com o céu agora amarelo, as nuvens refletindo o sol. Simon acende de novo seu baseado, agora sem incomodar Paul.
— Você gosta da faculdade de administração?
— Sim, é bem interessante.
— O que você quer fazer depois?
— Ainda não sei, comércio internacional provavelmente, administrar um negócio, alguma coisa assim. Onde você dá suas aulas de música?
— Vários lugares, trabalho para uma pequena escola de música em Leblon, mas faço aulas particulares também.
— Legal, responde apenas Paul, com um verdadeiro interesse. Pessoas me falaram que valia a pena de fazer essa trilha de noite, que ficava lindo demais, mas não pensava que ia ser tão bonito assim.
— Rio é uma cidade maravilhosa, tem tantas coisas para ver. Não fique apenas com os gringos ou os miseráveis de sua faculdade, vive com os cariocas, é assim que você vai conhecer a cidade.
Paul e Simon revezam conversas e momentos de silêncio, contemplando o outro e depois a cidade, em constante evolução. Os dois se descobrem, Paul se diverte por dentro do nome do Morro Dois Irmãos, que agora ganha um outro sentido. O dia nasce, Paul não sente mais o cansaço, ele quer saber tudo de seu irmão.
— Como era sua mãe? pergunta Paul, que sente anos depois a mesma falta de sempre de sua mãe.
— Ela tinha as mãos mais suaves do mundo, ela era muito querida.
— Tenho tanta saudade de mamãe… Tenho poucas lembranças dela.
— Ela era gentil também, era uma boa alma.
O sol está agora amarelo vibrante, ele se separou francamente do horizonte e se eleva em cima da cidade inteira. As ruas se animam, as nuvens de manhã já sumiram, um novo dia começa. Os dois irmãos olham uma última vez a Baía de Guanabara, se levantam e descem a montanha, apesar das pernas pesadas e dos organismos cansados. No caminho, aparece o outro lado do morro Dois Irmãos, que acolhe a favela da Rocinha.
— O que é isso? pergunta Paul, impressionado com o tamanho da favela.
— É a Rocinha, a maior favela de RJ.
— Caramba, é incrível, não percebi subindo. Quantos moradores tem?
— 200 mil, mais ou menos, ninguém sabe dizer, responde Simon. Posso te levar lá se quiser, eu dou aulas de música para crianças num projeto social da comunidade.
— Sério? Não é perigoso?
— Não, é a mídia que quer fazer acreditar nisso. Tem que ver isso por você próprio como é a vida lá.
— OK, quero ver sim.
Depois de 45 minutos descendo num clima muito mais leve que na ida, Simon e Paul voltam ao campo de futebol, mas com esse horário ainda matinal, não tem nenhum mototáxi disponível no topo de Vidigal.
— Vem, a gente vai tomar o café de manhã na minha casa, convida Simon.
— Não, tá bom, não quero incomodar, recusa educadamente Paul.
— É o melhor horário para comer. Você não incomoda não, eu que te convido, vamo, você não pode recusar.
— Então… vamos.
Sims entra num beco da favela para chegar até sua casa, no final da viela. O Pequeno Paulinho descobre a casa de seu irmão, bem grande e bem longe da ideia que tinha de uma casa de favela. Simon o convida na laje para comer uma manga bem fresca, com uma vista incrível nas praias de Rio de Janeiro. Paul aproveite do momento para conhecer Ana, a fornecedora de tênis e cerveja, também a namorada de Simon.
— Quer jogar? propôs Simon ao Paul, mostrando o tabuleiro de xadrez na mesinha perto da rede de dormir.
— Tem certeza? Sou bastante bom nisso, afirma Paul, cheio de certezas.
— Eu sei.
Simon junta o gesto à palavra e o mostra uma matéria de jornal que fala sobre Paul, campeão estadual de xadrez com 13 anos. Paul se emociona quando ele percebe que não é o jornal mesmo, mas uma página web impressa.
— Fiquei muito feliz, estou com muito orgulho de você, diz suavemente Simon.
— Caramba, eu tenho exatamente o mesmo tabuleiro em casa, responde Paul, ao mesmo feliz e pudico com o elogio de Simon.
— Eu sei. Você não lembra? Eu que te ensinei a jogar xadrez.
— Não foi mamãe?
— Sua mamãe me ensinou e depois te ensinei. Vamo, vem desafiar seu professor.
— Você vai se arrepender, já zoa Paul.
O jogo começa com dois cafés e Paul é efetivamente o melhor dos dois irmãos no xadrez. Ele ganha rapidamente uma melhor posição e ganha material, capturando o bispo de Simon, que não desiste da partida. Paul continua a melhorar sua posição e ganha mais uma torre com seu cavalo.
— Você não precisava capturar essa torre, imediatamente diz Simon, movendo sua dama em g6.
Paul entende tarde demais que Simon escapou de uma derrota certa, forçando o empate por xeque perpétuo, apenas com a atividade da dama.
— Bem pensado, reconhece Paul. Quero minha revanche, jogo com os brancos agora.
— Não tem revanche se tem empate.
— Sim…
Simon começa a partida com seu peão em d4.
— O Sistema London? Sério? reclama Paul depois de alguns movimentos das peças. Porra! Agora eu recorda! Você já jogava isso quando era criança!
— Faz tempo que não joguei assim, mas é isso, é o que eu te ensinei primeiro, sorri Simon.
Paul joga com mais seriedade e ganha uma vantagem, sem ser decisiva. Ele acaba cansado e fica surpreendido pelo sacrifício da dama de Simon. Bom desportista, ele joga a partida até o mate sufocado. Ana olha a partida sorrindo, sem entender nada do tabuleiro, mas com a reação dos dois irmãos, entende que Simon ganhou.
— Boa, diz Paul, apertando a mão do adversário.
— Boa, meu pequeno irmão. Agora que você perdeu, você pode ter sua revanche.
— Uma próxima vez, estou bem cansado, não consigo ver nada. Que horas são?
— 7 da manhã, só isso, fala Simon com um sorriso no rosto.
— Vou voltar em casa para dormir, já é bom para hoje.
Simon acompanha Paul e espera com ele até a chegada de um mototáxi na estrada principal de Vidigal.
— Pega meu WhatsApp, não estou muito no Facebook, explica Paul com o celular na mão. Fala-me quando você tem um show ou uma aula na Rocinha.
— Com certeza, a gente se vê em breve.
— Foi muito legal hoje… Obrigado.
— Obrigado você Paul.
— E vou ganhar minha revanche no xadrez!
Paul sobe na moto e volta em casa, cansado mas feliz, tão leve que uma nuvem no céu de Rio.






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