Conto #06: Se Deus quiser

Tem vários caminhos que levam a Deus. Lucilda segue a via dos orixás, as divindades do candomblé, presentes na natureza, seus ancestrais e sua alma. Para Lucilda, o amor sempre prevalece. Ela carrega essa frase no seu coração como um mantra. Não sempre foi fácil confiar no amor na sua infância pobre na aridez da Bahia. Algumas frases ouvidas na sua juventude inflamaram sua raiva, sem esfriar seu coração. “Apesar da sua cor, você é bonita” de uma professora, “você é a única preta que eu gosto” de um comerciante, “Deus te fez assim para te castigar” de uma freira.

Lucilda nunca se reconheceu na religião católica. Nas pinturas, Jesus era loiro demais, seus olhos azuis demais, sua história diferente demais dela. No púlpito, o padre pregava uma palavra diferente daquela do confessionário, era cruel negar comida a uma criança cheia de fome. Lucilda sempre teve a chama da luta, a abominação da injustiça. Entrou em um terreiro de candomblé com 13 anos de idade e finalmente se sentiu em casa. Lá, ninguém lhe perguntou se acreditava nos orixás, ninguém achou sua pele negra demais, ninguém a olhou com desconfiança ou desdém. Lucilda abraçou essa religião, a de seus ancestrais de África, trazida ao Brasil nos porões dos navios negreiros. Com danças e cantos, oferendas às divindades, Lucilda se reconecta com sua alma, sua história, sua linhagem. Fez sua iniciação ao candomblé na Bahia. Pelo jogo de búzios, o pai de santo de seu terreiro revelou que seu orixá era Ogum. Lucilda ignora as piadas e as ofensas, acolha os interessados com bondade, porque o amor sempre prevalece.

A religião alimenta a alma, mas não o corpo. Lucilda deixou o calor da Bahia, as bolsas secas, para Rio de Janeiro, onde também faz calor, mas com trabalho para uma jovem negra sem diploma. Lucilda se lembra da entrevista com a família onde se tornaria empregada doméstica.

— Com licença por perguntar, você acredita em Deus? – perguntou o pai de família.

— Sim, claro.

— Quer dizer… Você acredita em Jesus Cristo?

— Absolutamente, respondeu Lucilda sem mentir.

— Que bom… Quando vi que você era vestida todo de branco, com lenço na cabeça, tive medo que você era do candomblé ou dessas coisas do Diabo. De onde você vem, tem muitos né?

— Sim, mas muitos sofrem discriminação.

— Que pena… Mas estou aliviado, não quero magia negra na minha casa.

Lucilda seguiu o exemplo de seus ancestrais, escondendo sua religião, os orixás se misturando com os santos católicos, Ogum se tornando São Jorge, padroeiro de Rio de Janeiro. Com seu salário magro, Lucilda conseguiu alugar um pequeno apartamento em Cidade Alta, na Zona Norte de Rio de Janeiro. Encontrou também um terreiro de candomblé, dirigido por uma mulher, Dalva de Iemanjá. Com dedicação e devoção, Lucilda se tornou iá quererê, a segunda pessoa mais importante do terreiro.

Lucilda também achou um marido, um vizinho que lhe fez a corte por muito tempo. Lucilda não tinha interesse, mas ele estava sempre lá, em frente a sua casinha, elogiando-a. Ela respondia com um riso contido, mas recusava os convites para dançar. Uma vez, ela voltou do trabalho após dois dias exaustivos em Ipanema e ficou decepcionada de não ver seu vizinho. No dia seguinte, ela aceitava o convite para dançar. Ele nunca foi um amor apaixonante, mas ele ofereceu gentileza e respeito, além de três filhos.

José é um carioca raiz, com origens portuguesas já distantes. Nasceu na favela da Praia do Pinto na Zona Sul de Rio de Janeiro. Sua primeira lembrança de vida é sua casa em chamas, as tábuas de madeira ardendo e o zinco fervendo, e uma remoção forçada para Cidade Alta, longe, bem longe das praias cariocas. José é caminhoneiro e passa longas horas, longos dias no seu caminhão. Ele se apaixonou por Lucilda no momento em que a viu, sua beleza negra iluminando seu coração. Com muitos elogios e pequenos presentes, acabou por conquistá-la e a amou cada dia de sua vida. No seu caminhão, tem uma foto de família ao lado de uma imagem de Jesus e de um terço. José acredita em Deus, faz uma oração e o sinal da cruz cada vez que sobe no caminhão, cada vez que desce, ainda em vida, nas suas duas pernas.

Na verdade, existem dois Josés. O caminhoneiro, pai de família, católico, que diz gostar de visitar as igrejas, mesmo indo raramente à missa. O que volta em casa cansadíssimo, cuida da família e se prepara para uma outra longa jornada de trabalho no dia seguinte. E tem aquele José que volta do trabalho cansadíssimo também, mas não trabalha no dia seguinte, aquele que para no bar. José não bebe em casa e raramente na presença de sua mulher. Sempre tiveram horários atípicos, com 36, 48 horas ou mais de trabalho antes de um pouco de descanso. Quando Lucilda trabalha nos bairros nobres e nas casas grandes de Rio de Janeiro, quando José volta sozinho, ele não volta, ele para no bar. Ele bebe uma cachaça para cumprimentar os amigos, uma segunda para relaxar, as outras para esquecer. E assim ele é sozinho, sem Deus nem família. José nunca foi violento, mas muitas vezes ausente. As crianças foram cuidados por um vizinho ou um parente, pela primogênita Jéssica, e depois pela rua.

Jéssica é a filha mais velha da família, ela herdou o senso de justiça e luta de sua mãe, o senso de humor e espírito crítico de seu pai. Aproveitou a melhoria do ensino público nos anos 2000 e foi a primeira da família a ir para a universidade. Na verdade, já havia sido a primeira a cursar o ensino médio e fazer o ENEM. Com esforço, determinação e curiosidade, tornou-se jornalista, fazendo o orgulho de seus pais. Jéssica foi ateia durante muito tempo, rejeitando religiões e dogmas. Lucilda nunca pressionou seus filhos a seguirem o candomblé ou a umbanda, sendo um caminho espiritual e pessoal, José também nunca quis batizar seus filhos na fé católica.

Na universidade, Jéssica ainda lidava com a morte prematura de Rafael, sentia sua presença no coração e no corpo, na mente e na alma. Conheceu uma estudante que tinha capacidades mediúnicas, que falou coisas que apenas ela e Rafael sabiam, que lhe fez reconsiderar a vida e a morte. Já criança, Jéssica sentia a presença de sua avó, os orixás segundo a mãe, sua imaginação segundo o pai. Jéssica leu livros de Allan Kardec e Chico Xavier, ficou definitivamente convencida quando sua amiga sentiu a presença de um suicida no seu apartamento. Pesquisando, Jéssica descobriu que um estudante suicidou-se ali três anos antes. Jéssica segue agora o espiritismo, o que não a impede de manter um espirito racional como jornalista.

Leonardo é o segundo filho da família. Ele herdou a dureza de sua mãe e a melancolia de seu pai. Como José, Leonardo se refugiu na bebida para aliviar seus males, e passou para a cocaína barata da Cidade Alta. Sem grana, comprou droga no fiado de um traficante cruel, que deixou a dívida crescer para cobrar ainda mais caro. Leonardo chegou ao fundo do poço, encurralado por três traficantes armados. Leonardo devia 200 reais, que ele ia pagar com tortura. Apavorado, estendeu as mãos trêmulas, sob um pedaço de plástico aquecido. Os traficantes se divertiam com seus gritos de dor, cada vez que o plástico em brasa caia na palma ou no dorso da mão. Após dez minutos de tortura, o deixaram sozinho, chorando. Sem conseguir fechar o punho por causa das queimaduras, Leonardo remexeu os bolsos em busca de um lenço. Achou duas notas de 100 reais, que havia roubado da mãe. Tão chapado e assustado, esqueceu que tinha feito a pior coisa possível aos seus olhos, roubar na sua própria casa, roubar sua própria mãe, que sofria tanto no trabalho. As lágrimas de vergonha se misturaram às de dor. Um pastor se aproximou dele.

— Você teve uma visão do fogo do Inferno, entra e se aproxime do calor de Deus.

Leonardo entrou na pequena igreja evangélica e sentiu todo o amor de Deus, um amor puro, completo e intenso, como ele nunca havia sentido antes. Converteu-se na Assembleia de Deus e se libertou definitivamente do Diabo, da bebida e da droga. Recebeu Jesus como seu salvador e passou a ir aos cultos todos os dias, faltando apenas se ele estava preso nos transportes. Graças à comunidade, conseguiu um emprego, uma moradia, amigos. Graças a Deus, Leonardo é feliz.

Carlos é o filho mais novo da família. Ele herdou o espírito de luta de sua mãe, sem ter a coragem de acordar cedo. De seu pai, herdou poucas coisas. Carlos nunca deu ouvidos, nem na escola nem na casa, nunca se interessou na religião. Sua mãe no trabalho em Ipanema ou Leblon, seu pai no bar, Jéssica na universidade, Leonardo na boca de fumo, Carlos ficou sozinho na casa, acompanhado na rua. Sempre teve uma fascinação para as armas e com 15 anos, entrou para o tráfico da Cidade Alta, no Comando Vermelho. Dois anos depois, um chefe do CV foi preso pela polícia, outro foi morto por antigos comparsas. Carlos sentiu o vento mudar, levou dois fuzis e se aliou à facção rival.

Carlos se juntou ao Terceiro Comando Puro, liderado por Oseias, traficante e pastor numa igreja neopentecostal nas horas vagas. Oseias pegou esse apelido em homenagem ao Josué, que no Antigo Testamento conquistou, em nome de Deus, a Terra Prometida. Na favela vizinha de Vigário Geral, uma arma na mão, uma Bíblia na outra, Oseias preparava seus homens, citando versículos bem escolhidos.

— Das cidades destas nações que o Senhor, teu Deus, te dá por herança, não deixarás com vida nada que tenha folego. Porque do Senhor vinha que o seu coração se endurecesse para sair à guerra contra Israel, para que fossem totalmente destruídos, exterminados sem misericórdia, como o Senhor ordenara a Moisés. E guerrearam contra Midiã, como o Senhor ordenara a Moisés; e mataram todos os homens. Queimaram a fogo todas as cidades onde habitavam e todos os seus acampamentos. E tomaram todo o despojo.

Oseias tinha recebido uma missão divina, tomar a Cidade Alta das mãos do Comando Vermelho. Com a ajuda de crias como Carlos, os traficantes do TCP invadiram a favela e pegaram o território, como os soldados de Deus fizeram em Jericó e Canaã. Oseias agradeceu Jesus e matou seus inimigos do CV. A favela tinha um novo líder, uma nova religião. Pouco tempo depois, a tropa de Oseias proibiu as festas juninas católicas, invadiu os terreiros de candomblé. Sob a ameaça dos fuzis, Dalva de Iemanjá foi forçada de destruir as estatuetas e imagens dos orixás, pichar nos muros “Jesus é o dono do lugar”. Lucilda assistia à cena, aterrorizada e impotente. O coração frio e os olhos secos, ela não sabia mais se o amor prevalecia. Oseias estava lá, ameaçador e onipotente.

— Vão pegar 100 cestas básicas para os moradores da comunidade e depois mete o pé. Se vejo vocês aqui adorar o Diabo, mato vocês, ameaçou Oseias.

Lucilda implorou seu marido de sair de Cidade Alta. Pragmático, José respondeu que a casa não valia mais nada, que não podiam ir em outro lugar. Pragmática, Lucilda pediu o divórcio e saiu da favela. Sabia que onde se destruíam templos, logo se destruiriam homens. O tráfico já lhe havia tirado um filho. O Comando Vermelho tentou retomar a Cidade Alta e no final de um dia de tiroteios intensos, Carlos foi encontrado deitado, sangue no chão, balas no corpo, os olhos abertos da morte. Lucilda não sabia se era o Comando Vermelho, a própria tropa de Oseais ou até a polícia. CV, TCP, BOPE, eram só letras e nenhuma lhe traria de volta seu filho. Lucilda pegou um segundo emprego na Zona Sul e nunca mais voltou à Cidade Alta.

Tempos depois, a pandemia fortaleceu a tropa de Oseias e com ela, a repressão contra as religiões afro-brasileiras. Na Cidade Alta, os tiros nunca pararam de verdade. Um deles foi fatal ao José, atingido mortalmente no seu caminhão, 200 metros adiante, na Avenida Brasil, perto de onde sempre viveu. Onde Leonardo ainda vive, levando uma vida saudável, longe das drogas, perto de Deus. Lucilda, por sua vez, parou de trabalhar e vive agora na casa de sua filha Jéssica, nos bairros nobres de Rio, cuidando do neto Allan. Se Deus quiser, o amor sempre prevalece.

Laisser un commentaire

Tendances