O 25 de junho de 1995 é um dia particular para o futebol carioca. Flamengo e Fluminense se enfrentam na final do campeonato carioca, deixando os clubes de Botafogo e Vasco a um papel de coadjuvantes. Também é um dia especial para John Victor, que comemora seus 10 anos. Toda a família se renuiu para o festejar: sua mãe Maria Glória e seus três tios.
John Victor nunca conheceu seu pai e nunca realmente sofreu disso. Cresceu no bairro humilde de Engenho Novo numa casa pequena, mas com muita gente: sua avó Eugenilda, sua mãe e seus três tios. É mais difícil para Maria Glória, ela nunca conheceu seu pai e seu maior medo se concretizou criando sozinha seu filho. Menor, John Victor perguntava quem era seu pai, mas Maria Glória sempre tinha uma lágrima no olho como única resposta, então John Victor parou de perguntar. Ele tem três modelos masculinos, muito cúmplices, que brigam apenas por uma coisa na vida: o futebol.
Gilberto é o mais velho e é fanático pelo Vasco. É o único que tem lembranças do pai, português e vascaíno como ele. Miguel torce para o Botafogo. No rádio, no estádio ou no cinema, assistia aos dribles de seu ídolo Garrincha. Pedrinho vibra com o Flamengo. Seu pai saiu da casa antes mesmo de seu nascimento, Deus sabe onde, para nunca mais dar sinal de vida. Pouco tempo depois, Eugenilda se casou de novo com um homem de apenas 20 anos. Ela foi malvista no bairro, mas ele foi o melhor dos homens que conheceu. Ele foi mais que um pai para Gilberto, Miguel e Pedrinho. Seu único defeito era que ele torcia para Bangu. No Rio, ele não era nem Vasco nem Botafogo, nem Flamengo nem Fluminense, mas vibrava com o pequeno Bangu. Orgulhava-se de ter nascido em 1933, ano do único título estadual do clube. Ele não teve tempo de ver o título de 1966, morreu antes num acidente de carro. Sua morte deixou um grande vazio na família e no coração de Eugenilda.
Eugenilda nunca mais se casou, nem namorou. Por isso que sua quarta gravidez, mais de dez anos depois do nascimento de Pedrinho, surpreendeu todo mundo. Maria Glória nunca conheceu seu pai, Eugenilda levou seu nome até seu túmulo dois anos atrás. Gilberto, eterno solteiro, Miguel, divorciado há alguns anos e Pedrinho, que cumula as ficantes com a mesma facilidade que as cervejas, ficaram na pequena casa familiar. Maria Glória, que ganha sua vida como tradutora português-inglês, tentou sua sorte com seu filho John Victor e foi morar num pequeno apartamento no Méier. A família ficou unida e os três tios, já muito protetores com Maria Glória, são pilares na vida de John Victor.
O outro pilar da vida de John Victor é o futebol. Ele joga futebol na escola ou embaixo do prédio, sozinho ou com os amigos. Em casa, ele joga futebol de botão, fazendo gols com Pelé e Garrincha, ele assiste incansavelmente fitas VHS, repetindo as façanhas de Zico e Sócrates, ele joga no seu quarto com uma bola de meias, imaginando jogando como Bebeto ou Romário. Antes de dormir, ele lê e relê seus álbuns de futebol, decorando os campeões do campeonato carioca, ano após ano, sem nunca errar. Apenas na noite ele faz uma pausa, quando o futebol não invade seus sonhos. Hoje, uma nova linha vai se adicionar à lista dos títulos dos campeões de Rio, hoje John Victor comemora seu 10° aniversário.
John Victor não vê a hora de rever seus tios e assistir à final do campeonato carioca entre Flamengo e Fluminense, mesmo torcendo por nenhum dos clubes, nem por Vasco ou Botafogo. É o paradoxo de John Victor, ele vive futebol de 7 horas até 21 horas, mais os sonhos noturnos, mas ele não torce para nenhum clube. Ele chorou de felicidade quando a Seleção venceu a Copa de 1994, suas lágrimas de alegria secando as de tristeza que caíram na morte de Ayrton Senna. Ele assiste a todos os jogos que pode, mas seu coração ainda não achou seu clube. O coração de John Victor acelera ao ouvir bater à porta do pequeno apartamento no Méier. Ele se joga nos braços de seus três tios.
— Parabéns menino, se exclama Gilberto.
— Feliz aniversário Victorzinho, fala Miguel.
— Parabéns Johnny! Liga a TV pra mim, vai, pede gentilmente Pedrinho.
Maria Glória reclama ouvindo o pedido de seu irmão, mas ela sabe que daqui a pouco, toda a família estará na frente da televisão para assistir ao Fla-Flu.
— O jogo é só daqui a 3 horas tio, comenta John Victor.
— Melhor chegar cedo do que tarde.
— Era pra vocês chegar faz uma hora, se diverte Maria Glória.
— Porra, pra um carioca, uma hora de atraso é chegar na hora.
— Gilberto! Cuidado com palavrões na frente de meu filho.
— Tá bom, Gló. Ele ouve coisa pior na escola. Você tem notas boas John?
— Sim, responde John Victor. Tirei 10 em inglês e um 9 em matemática.
— E um 6 em história, acrescentou Maria Glória.
— Victor, como se chama sua namoradinha na escola? pergunta Pedrinho.
— E a sua? Como ela se chama? responde malicioso John Victor.
John Victor alterna seu tempo entre a mesa onde come batatas fritas aos montes e seu quarto onde joga futebol, aproveitando a movimentação na sala para pular e correr sem levar bronca da mãe. Na sala, Pedrinho olha frequentemente a televisão, a ansiedade do jogo cada vez mais evidente no seu rosto, o que não falta de divertir seus irmãos.
— Calma Pedrinho, é o centenário do Flamengo, vão ganhar com certeza. Ou talvez não.
— A chuva vai ajudar Fluminense, acrescenta Gilberto. Se tivesse sol, Flamengo ganhava, mas com essa chuva, já era, Flu campeão.
— Pode ser, e vai ser difícil para Flamengo sem Romário.
— O quê???
— Não ouviu Pedrinho? Romário tá fora, acabaram de falar na televisão.
Gilberto não pode esconder a risada ouvindo a brincadeira de Miguel e a angústia de Pedrinho.
— Cês dois palhaços, vocês dois, sabe? reclama Pedrinho. Vamos abrir os presentes? O jogo já vai começar e temos uma surpresa pro Victor.
Com imploro de Pedrinho, John Victor volta à sala e toda a família canta os parabéns.
— Parabéns pra você, nesta data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida ! Hoje é dia de festa, cantam as nossas almas para o Victor, uma salva de palmas !
— É hora, é hora, é hora, é hora, é hora !
— É pique, é pique, é pique, é pique, é pique !
— Ra-tim-bum ! Victorzinho !
Sorrindo de orelha a orelha, John Victor começa a abrir os presentes da mãe. Ele ganha um livro sobre a história do Brasil e uma bola de futebol.
— Parabéns meu amor, te amo.
— Abre esse aqui menino, é meu, diz Gilberto, entregando um pacote.
Com empolgação, John Victor abre o presente e descobre uma camisa do Vasco.
— É a camisa mais linda que você pode vestir na vida, jura Gilberto.
— Pois é, pra tirar o lixo talvez, reage Miguel. Pega Victorzinho, aqui é meu presente.
John Victor abre o presente de Miguel, uma camisa do Botafogo. Maria Glória sorri vendo seus irmãos brigar, ela já sabe qual será o presente de Pedrinho.
— Essa aqui é uma camisa linda de verdade, você pode a vestir em qualquer lugar, assegura Miguel.
— Até para um velório com esse time de mortos. Cês não ganham nada faz 20 anos.
— Toma Victor, não escuta eles, diz Pedrinho oferecendo seu presente. Isso é melhor.
— Não sei o que será… diz John Victor com um largo sorriso. É vermelho e preto?
— Abre e vê.
John Victor abre seu último presente e descobre sem nenhuma surpresa uma camisa do Flamengo.
— Olha Victor, fala Gilberto bem sério. A gente se reuniu nossos três com seus tios e chegou a um acordo. Você tem 10 anos agora, você é a metade de um homem. A gente não aguenta mais seus bolos com as cores da Seleção, você tem que escolher um clube no Rio.
— Pode não ter namorada, ninguém vai te cobrar aqui, acrescenta Miguel. Mas você tem que ter um time, é assim, todo mundo tem um.
— Você fala de quê com seus amigos na escola? pergunta Pedrinho. Tenho certeza que são flamenguistas, você não quer ser como eles?
— Victor, interrompe Gilberto. Teu avô, mesmo se tu não conheça, era vascaíno. Nós somos portugueses, você tem que torcer para Vasco.
— Lembra Victorzinho quando te levei ao Maracanã para ver Botafogo? Você pode ser igual todo mundo e torcer para Flamengo ou Vasco, ou você pode ter sua própria personalidade e torcer para Botafogo. Os botafoguenses têm personalidade.
— Deixem o menino em paz, ajuda Maria Glória. Ele torce pra quem quiser.
— Pra quem quiser, sim, mas tem que escolher, insiste Pedrinho. Pensa bem Victor, só tem Flamengo na final. Vai assistir a mais uma final como neutro? Romário é seu jogador preferido né? Ele joga no Flamengo porra!
— Tem que escolher, conclui Gilberto. Victor, vai pro quarto para pensar sobre isso e volta com uma camisa para dizer tua escolha.
John Victor, habitualmente tão falador, não diz uma palavra. Ele pega suas três novas camisas debaixo dos braços e vai pro quarto. Ele as coloca em cima de sua cama, sem fazer sua escolha. Ele nunca teve um carinho por um desses clubes, mas ele conhece seus tios, eles vão insistir sem nunca desistir. John Victor olha para as três camisas, seu quarto, sua bola, seus pôsteres e seus livros. Em seguida, ele sorri. Ele volta vitoriosamente na sala, sob o olhar mortificado dos tios.
— Esse menino tá de brincadeira… se lamenta Gilberto.
— Eu não acredito.
— Você não pode ser sério Victor.
John Victor ostenta orgulhosamente uma camisa de Fluminense, recuperada no seu armário. Uma colega de sua mãe lhe tinha dado roupas que não serviam mais para seu filho. Entre elas, tinha essa camisa de Fluminense, que John Victor nunca tinha vestido. Até o dia de hoje. Agora ele tinha um time de coração, não era nem Flamengo, nem Vasco, também não era Botafogo, John Victor era Fluminense.
— Eu sou Fluminense, como eram Tom Jobim e Nelson Rodrigues.
— Porra Victor, você não pode fazer isso pra nós. Vasco, Flamengo ou Botafogo, você escolhe, mas Fluminense não!
— É decidido já, sou tricolor, como Chico Buarque, meu músico favorito.
— Mas ninguém é tricolor nessa casa, tenta Miguel.
— Sim. Eu.
— Mas Fluminense é o clube dos ricos.
— Eu quero ser rico.
— Glória, ajuda-nos pelo amor de Deus, implora Gilberto.
— Deixa o menino torcer para quem quiser. Se é Fluminense, é Fluminense.
— Eu sou Fluminense desde que nasci. Me chamo John Victor, um nome inglês e francês, os primeiros jogadores do Fluminense eram ingleses, os primeiros dirigentes, franceses.
— Mas você não é inglês ou francês, você é português! ainda tenta Gilberto.
— Tio, você nasceu em 1945 e você é vascaíno. Vasco foi campeão em 1945. Tio Miguel é botafoguense e nasceu em 1948, ano do título do Botafogo. E tio Pedrinho torce para o Flamengo, nasceu em 1953, com Flamengo campeão.
— Como esse menino sabe tudo isso e tira 6 em história? se espanta Miguel.
— Tio, falei que a prova era difícil. Mamãe nasceu em 1966, ela não gosta de futebol e foi o ano que Bangu foi campeão. Eu nasci em 1985. Quem foi campeão em 1985?
— Fluminense?
— Fluminense.
Para John Victor, agora era Fluminense. Ele tinha feito isso tanto para chatear seus tios como não decepcionar dois e alegrar apenas um. Estavam todos na mesma escola, a do Fluminense, uma paixão tão súbita que intensa. John Victor assistia ao Fla-Flu, sua antiga camisa nas costas, sua nova paixão no coração. Ele vibrava, ainda mais que nos jogos da Seleção, zoando Pedrinho e seus outros tios. Flamengo era o campeão, até os cinco minutos finais e um gol de barriga de Renato Gaúcho. Um gol do peito, do coração para oferecer ao Fluminense a taça de campeões e ao John Victor sua primeira alegria de tricolor. Ele não errou, ele era Fluminense, era campeão, era feliz.
Seus tios foram embora logo depois do jogo, aceitando com resignação e bom humor a escolha do sobrinho querido. John Victor colocou seu pijama, ainda não do Fluminense, e foi dormir, sob o olhar cheio de amor de sua mãe.
— Você sabe porque seu nome é John Victor?
— Por causa do escritor francês Victor Hugo, né?
— Victor sim, mas te chamei de John, e não João… Eu não vou fazer o mesmo erro que minha mãe. Meu querido, você está crescendo e sou muito orgulhosa de ti, do que você está se tornando. Meu amor, vou te contar quem é seu pai.






Laisser un commentaire