Conto #04: Campeão com os 4 gigantes do Rio, Julinho Bailarino abre o jogo: “Merecia jogar ao menos uma Copa”

Por Marcelo Carneiro e Laísa Iago – Rio de Janeiro

07/06/2014

No futebol, tem apenas dois homens que conquistaram o campeonato carioca com os 4 gigantes do Rio de Janeiro: o técnico Joel Santana e o jogador Julinho Bailarino. Revelado no Botafogo nos anos 1960, Julinho Bailarino, que mexia a velocidade de um ala, a técnica de um camisa 10 e a raça de um volante, passou por Fluminense, Flamengo e Vasco, sempre com o mesmo destino: campeão. Irreverente em campo e polêmico fora, Júlio César Santana, chamado de Julinho Bailarino pelo grande Nelson Rodrigues, teve algumas saídas conturbadas de clubes, mas mostra um único arrependimento: nunca ter jogado a Copa do mundo. Hoje, comentarista respeitado no SporTV, Julinho viveu momentos difíceis nos anos 1990 e 2000, quando perdeu quase tudo no vício das drogas. Confira abaixo a entrevista:

Durante anos, Julinho Bailarino brilhou no Maracanã, onde foi campeão com os 4 gigantes do Rio de Janeiro.

Você nasceu no Rio de Janeiro e foi campeão com os 4 gigantes da cidade. Você torcia por um time na sua infância?

Nasci numa favela do Complexo do Alemão, num casa sem luz e eletricidade. Mas vivi uma infância feliz, estava sempre na rua, jogando futebol com os amigos. Ainda não tinha a violência de hoje, era tranquilo, vizinhança boa. Nunca conheci meu pai, minha mãe era flamenguista, então me apaixonei com o clube, ainda mais com o tricampeonato 1953-1954-1955. Tinha muitos ídolos, Benítez, Índio, Evaristo, depois Dida. Mas meu maior ídolo era Rubens, um jogador negro, que sabia fazer tudo com a bola. Me identificava nele, queria jogar como ele. Defendia, atacava, driblava, fazia o passe, o gol. Hoje não existe mais jogadores assim.

Você cresceu ainda nos inícios da Era Maracanã, você frequentava o estádio?

Não, só bem depois, quando era adolescente . Eu estava muito ligado à minha mãe, ela era professora e trabalhava muito, não tinha tempo para isso. Um dia, minha mãe começou um novo emprego numa escola da Zona Sul, eu a acompanhei, me lembro bem. Ela se apresentou, falou que era nova, e o diretor jogou na cara dela um balde e uma vassoura para limpar as salas. Ele não pediu nada, ele nem imaginava que uma negra podia ser professora e quando percebeu o erro, não pediu desculpas, só fez cara feia. Foi a primeira vez que eu fui confrontado ao racismo e fiquei revoltado, porque minha mãe era tudo pra mim. Só que ela tinha transtornos psicológicos, ela se sentia perseguida. Um dia, ela cometeu suicídio. Foi o fim de minha infância, nesse dia bem ali.

Quantos anos você tinha?

Eu tinha 11 anos. Eu passei no SAM, o Serviço de Assistência aos Menores, depois no Febem, um centro de detenção juvenil. Eu era revoltado, com a vida, com tudo. Não tinha pai, não tinha mãe, tinha nada, respeitava nada, nem a vida. Comecei a viver na rua com amigos, fazia assaltos, roubava tudo que podia. Hoje me arrependo muito dessa vida, mas na época eu gostava, me sentia vivo assim. No Febem, jogava muito futebol, sempre fui habilidoso, driblador, mas jogava com raça, até raiva. Não tinha medo de apanhar, ao contrário, eu dava cotovelos, pontapés, tudo que podia. Um diretor do Febem gostava de mim por causa do futebol, ele me apoiou, mas eu não queria ouvir ninguém. O cara me ajudava e eu xingava ele. Voltei na rua. Um dia, fiz um assalto com um amigo, a polícia chegou e começou a atirar, tive sorte, meu amigo não. Morreu na minha frente. Fui o único a aparecer ao seu funeral. Percebi que seria o próximo à morrer, e que ninguém ligaria. Uma noite, minha mãe apareceu num sonho, ela era jovem e linda. Todo mundo estava sempre puto comigo, mas ela me amava, me falou que precisava mudar. E mudei, foi uma promessa para mim e para minha mãe. Voltei no Febem e o diretor me ajudou, conseguiu um teste para mim no Botafogo. O futebol era minha redenção.

Como foi o teste no Botafogo?

Incrível cara… Eu tinha 17 anos, a fome que tinha na barriga, tinha nas pernas também. Fiz um coletivo com os juvenis contra o time principal do Botafogo. Jogava na ala direita, aí meu primeiro marcador foi Nílton Santos, a Enciclopédia do Futebol. Era o último ano profissional dele, não tinha um cara mais respeitado no Botafogo. Mas eu não tinha a opção de falhar. Fiz um grande jogo, driblei o Nílton várias vezes, fiz um golaço. Nílton Santos me cumprimentou, apontou para mim aos dirigentes, falou que seria o novo Garrincha.

As comparações com Garrincha começaram logo na sua estreia no Botafogo…

Sim, comecei em 1965, o último ano de Garrincha no clube. Ele já vivia com lesões no joelho e lutava contra o alcoolismo. No meu primeiro jogo, joguei com a camisa 7 dele. Fluminense abriu o placar, mas fiz 2 gols e ganhamos de virada. A torcida esperava um novo Garrincha e eu driblava muito, apesar de um estilo diferente. Joguei muito, tanto que participei da preparação para a Copa do mundo de 1966. Estreei com a Seleção contra o Peru, no Maracanã. Joguei bem, mas a CBD já era uma bagunça, tinha muitos jogadores convocados. No final chamaram Jairzinho e Garrincha, mesmo que Garrincha era só a sombra de si mesmo. Mas Mané foi um grande companheiro, ele era simples e divertido, adorei jogar com ele. Foi uma decepção não ir à Copa. Não acompanhei a Copa e comecei a aproveitar da noite. Durante toda minha juventude, os lugares eram fechados para mim, ninguém olhava para mim. Um monte de amigos começaram a aparecer, me chamar para festas. Eu estava fascinado por esses lugares, gostava dessa companhia, das mulheres também, tudo que não tinha antes. Só que atrapalhou minha carreira, comecei a ter fama de baladeiro e voltei no banco.

Botafogo tinha um timaço na época.

Sim, um dos maiores times em que eu joguei. A gente foi bicampeão carioca, em 1967 e 1968, demos um baile no Vasco na final. Do meio para frente só tinha craques, Gérson, Rogério, Roberto, Jairzinho. Tinha Paulo César Caju, com quem fui muito amigo. Ele cresceu numa favela também, casa de madeira, sem pai, também passou por internato, a gente se entendia. Lembrei de um episódio de 1968, fizemos uma excursão no Rio Grande do Sul, em Erechim. Numa festa tinha uma placa que dizia que a entrada era proibida aos negros. A gente finalmente entrou, mas fiquemos revoltados. Fui amigo com Afonsinho também, um craque e rebelde, que recusou de cortar o cabelo e a barba. Era a época da ditadura e quem era barbudo era chamado de comunista. Afonsinho entrou em conflito com o técnico Zagallo, que o chamou de líder negativo. Eu também não jogava, claro tinha a concorrência de Jairzinho, mas merecia mais oportunidades. Pedi para se transferido, teve uma proposta de Santos, que oferecia o dobro de meu salário. Estava louco para jogar ao lado do Pelé, mas o presidente de Botafogo me obrigou a renunciar aos 15% do passe que eu tinha direito. Percebi que Afonsinho tinha razão, jogador era só mercadoria. Recusei, briguei com a diretoria e não assinei com Santos.

Como aconteceu sua transferência no Fluminense?

Deixei muito grana no contrato. A diretoria do Botafogo insistia para me deixar no banco e percebi que ia não ter chance de jogar a Copa de 1970. Finalmente abri mão de meu passe, mas até hoje estou revoltado com essa atitude. Jogador tinha poucos direitos e nem isso os dirigentes respeitavam. Hoje, faria diferente, como o Afonsinho fez, mas eu era jovem e acabei cedendo. No Fluminense, cheguei junto com Cafuringa, outro ponta-direita. O treinador Telê Santana me pediu para jogar na esquerda, falei que não era canhoto. Mas percebi que era minha única chance de jogar e trabalhei muito o pé esquerdo nos treinos. Era um desafio para mim, sempre queria melhorar meu futebol. E o Telê era chato demais, eu fazia cruzamentos do pé esquerdo, de 10 cruzamentos, acertava 9 e errava apenas um, e era desse que Telê reclamava. Mas ele foi o melhor técnico que teve. Joguei uma barbaridade na final do campeonato carioca de 1969. Tinha mais de 170 mil no Maracanã para o Fla-Flu, fiz 2 gols e dei uma assistência para Flávio. Assim completei um tricampeonato pessoal depois dos dois títulos com Botafogo.

Nesse ano de 1969 você foi um dos “feras” de João Saldanha na Seleção.

João Saldanha adorava meu futebol. Acho que ele também gostava de meu lado rebelde. Depois da história do passe no Botafogo, reclamei do paternalismo dos dirigentes, falei que futebol era um retrato da fase política que o Brasil vivia. Isso pegou mal, recebi até uma ligação de um torcedor, me falando que deveria tomar mais cuidado com o que eu falava. Acho que era alguém da junta militar. Tinha a censura, falava ao vivo e isso incomodava muito, uma parte da imprensa me chamava de rebelde, de esquerdista e tudo isso. João Saldanha, que era comunista, me adorava, até falou que a Seleção era eu e mais 10. Joguei na ponta-esquerda, mas tinha liberdade para voltar no meio, combinar com Pelé, Gérson ou Tostão. Fiz 6 gols nas eliminatórias, tinha passaporte carimbado para a Copa. Só que João Saldanha incomodava o governo também, eles o mandaram embora. E chamaram no seu lugar Zagallo, que não gostava de meu futebol desde os tempos do Botafogo. Ele escalou Rivelino como titular e nem fui chamado para a Copa, uma tremenda injustiça.

Como foi o reencontro com Zagallo no Fluminense?

Zagallo chegou no Fluminense em 1971 e fiquei muito puto, ele não gostava de meu futebol e pensei em sair do clube. O campeonato carioca começou de uma maneira difícil para nós e Botafogo disparou na frente. Eu jogava sem confiança, Zagallo me chamou e falou que contava comigo, que sabia que eu podia entregar mais. Ele me pediu para voltar mais em campo e ajudar no meio. Falou que eu era um jogador técnico, mas que tinha raça e visão de jogo, que seria mais útil assim. Ele falou com tanta convicção que isso me deu muita confiança. Eu jogava mais atrás, mas fiz gols importantes. Fizemos uma arrancada no campeonato carioca e fiz o gol do título contra Botafogo. No Brasileirão, eu fui até artilheiro do campeonato, fiz vários gols de falta e voltei na Seleção. Vencemos a Taça Independência, outra competição com marca do regime militar. Joguei bem, só que depois fizemos uma excursão na Europa que foi um fracasso. Na volta, joguei em São Paulo com a Seleção, fui vaiado pelo Morumbi lotado. Um absurdo, paulistas odiavam os jogadores cariocas, mesmo com a camisa amarela.

Em 1973, ainda teve o episódio da porta dos fundos, que precipitou sua saída no Fluminense.

Na época, a gente treinava nas Laranjeiras, jogadores tinham que entrar pela porta dos fundos, na rua Pinheiro Machado. O portão principal, da rua Álvaro Chaves, era reservado aos dirigentes e sócios. Um dia, assinei autógrafos para torcedores e estava atrasado, entrei pelo portão principal. Um dirigente chegou aborrecido, me xingando, chamando de moleque. Eu tinha a impressão de voltar na infância, quando os lugares eram proibidos para mim. Vi que a atitude dele era por causa da cor de minha pele, dificilmente teria feito isso com um jogador branco. Eu era negro, tinha cabelo Black Power, na moda da época. Denunciava a ditadura, a censura, o paternalismo dos dirigentes. Me revoltei com o dirigente, falei que fiz muito mais pelo Fluminense que ele, eu não era moleque para deixar um parasita me falar assim. O presidente queria que eu pedisse desculpas e fiquei ainda mais revoltado, era o dirigente que precisava pedir desculpas. Recusei e fui suspenso…

Em seguida, você foi transferido no Flamengo na famosa troca-troca envolvendo 12 jogadores e os 4 clubes cariocas.

Mais uma prova que jogador de futebol é só mercadoria. Trocaram a gente como se fossemos moedas. Critiquei os dirigentes do Fluminense e passei a comemorar meus gols com o punho cerrado, como o movimento Black Power, e fui ainda mais criticado. Eu saía uma vez por semana nas festas, no domingo depois do jogo, e jornais falavam que só vivia de noitadas. Frequentava músicos de esquerda, estava sempre com Afonsinho que jogava no Flamengo também. Zagallo não me chamou para a Copa de 1974, não sei se foi escolha dele ou imposição, mas tenho certeza que foi por coisas fora do campo. No futebol, me dediquei muito nos treinos e joguei bem em campo. Fiz uma grande dupla com Zico e ajudei Flamengo a conquistar o campeonato carioca. Nos treinos, batia faltas com Zico, mas logo percebi que não ia bater nos jogos, ele era fora do comum. Foi ali também que ganhei o apelido de Bailarino, tinha um outro Julinho no Flamengo e o jornalista tricolor Nelson Rodrigues me chamava de Bailarino, escrevia que eu jogava com a graça de um bailarino russo e a raça de um soldado soviético. Como eu tinha a fama de ser esquerdista, o apelido ficou. Foi diferente vencer com o time de meu coração, o da minha mãe. Sabia que ela estava feliz no céu.

Como você tomou a decisão de ir aos Estados Unidos?

Eu já tinha 30 anos, estava cansado das polêmicas e queria sair do Rio de Janeiro. Na minha carreira, deixei passar muita grana, eu queria um último bom contrato. Tive proposta de Palmeiras e outra dos Estados Unidos, no Los Angeles Aztecs. Pelé tinha aberto um mercado nos Estados Unidos e estava louco para conhecer o país, eu tinha como ídolos Muhammad Ali, Tommie Smith, Malcom X e Angela Davis, que lutavam pelos direitos dos negros. O Cláudio Coutinho, que era meu técnico no Flamengo e também técnico da Seleção, me pediu para ficar no Flamengo ou ao menos no Brasil para me convocar na Copa do mundo de 1978. Tinha também Zagallo que queria me contratar no futebol árabe para fazer uma dupla com Rivelino. Por isso, acho que não foi escolha de Zagallo de não me convocar na Copa de 1974, e também por isso não queria confiar no Coutinho. Ele era o técnico da Seleção mas também era capitão do exército, tem uma hierarquia, se um coronel ou um general ia mandar não me convocar, o que ele faria? Não queria correr o risco de o Coutinho me decepcionar. Também tinha a polêmica da Copa se jogar na Argentina, um país com ditadura militar. Não podia falar tanto no Brasil e ir na Argentina, aí aceitei a proposta dos Estados Unidos.

Como foi sua vida nos Estados Unidos?

Adorei jogar no Los Angeles, tinha muitas estrelas no campeonato. Joguei duas vezes contra Pelé, no último jogo ele fez 3 gols. Joguei ao lado de George Best e Johan Cruyff. Fiz festas incríveis com Best e a inteligência de Cruyff dentro e fora do campo me surpreendia. A cidade de Los Angeles era incrível, tinha estrelas do cinema, festas todas as noites. O futebol era diferente do que no Brasil, menos exigente, os jornais não vigiam. Não sei se me faltava alguma coisa, tinha a saudade do Brasil, ou se era o clima da cidade, das festas, mas comecei a experimentar cocaína nos Estados Unidos. No início, de uma forma leve, mas o vício se instalou ali.

Foi por causa disso que você voltou ao Brasil?

Joguei dois anos nos Estados Unidos e senti que era o fim da aventura. Tive uma proposta de São Paulo, que tinha a fama de contratar jogadores veteranos, inclusive cariocas, como Leônidas e Gérson. Mas o Vasco chegou, com toda sua história, sua consciência racial e eu queria voltar ao Rio de Janeiro. Um ano antes, Moisés tinha sido o primeiro jogador a jogar pelos 4 gigantes de Rio de Janeiro. Eu já era campeão com 3 clubes, tinha a ideia de ser campeão com os quatro. Cheguei no Vasco para substituir Roberto Dinamite, que tinha ido ao Barcelona. Graças a Deus, Roberto Dinamite voltou rapidamente no Vasco. Era fácil jogar com ele, entendia tudo das movimentações em campo. A gente passou perto do título em 1980, mas bateu na trave contra Fluminense. O campeonato carioca tinha um nível absurdo nessa época, e finalmente a gente conseguiu ser campeão em 1982. Concluí esse ciclo, ser campeão carioca 7 vezes, com os 4 clubes de Rio, além de ter jogador com os maiores craques do Brasil, Pelé, Tostão e Rivelino na Seleção, Didi, Garrincha, Zico e Roberto Dinamite nos clubes. Jogar ao lado deles e ter o respeito de todas as torcidas do Rio são os maiores orgulhos de minha carreira.

Sua boa fase no Vasco te permitiu de voltar na Seleção.

Sim, Telê me chamou de volta e fui titular no Mundialito, substituindo Zico que era machucado. Nas eliminatórias da Copa, joguei na ala esquerda, mas não tinha a velocidade de antes. No Vasco, jogava no centro, como ponta de lança, em apoio ao Dinamite. Falei para Telê que não dava mais na ala, mas ele só reclamava de meu higiene de vida. Eu fumava e bebia cerveja às vezes, não me escondia disso, mas Telê odiava cigarro. Ele também me pedia de falar menos na imprensa, era mais conservador. Um dia, fiz 2 gols num jogo das eliminatórias, mas reclamei de meu posicionamento em campo. Telê não gostou e nunca mais me chamou. Assim, perdi a última oportunidade de jogar uma Copa, uma pena porque o time de 1982 jogava pra caramba. Talvez comigo o final teria sido diferente… Acho que merecia jogar ao menos uma Copa, principalmente em 1970 e 1974, estava no auge de minha forma.

É seu maior arrependimento no futebol?

Sim claro. Gostaria de ter jogado na Europa, mas sobretudo me falta uma Copa. Outro arrependimento é não ter jogado no Corinthians no final da carreira. Era a época da Democracia Corintiana, e queria participar desse movimento, fazia sentido como toda minha história de luta contra a ditadura. Além disso, tinha um entrosamento diferente com Sócrates na Seleção, a gente se entendia em campo sem se olhar. Os próprios jogadores do Corinthians votavam pelas contratações. Sócrates votou a meu favor, Wladimir também, mas outros jogadores achavam que era egoísta e me barraram. Achei uma tremenda injustiça, eles não me conheciam. No final, assinei com Bangu para jogar um último campeonato carioca, a gente chegou até o triangular final, mas já não tinha cabeça para o futebol e decidi pendurar as chuteiras, aos 36 anos. Tive a imagem de um jogador polêmico, que não cuidava da forma física, briguei com dirigentes e alguns técnicos, mas sempre me dei bem com meus companheiros, joguei 18 anos em alto nível, tenho muito orgulho de minha carreira.

Depois você tentou sem sucesso uma carreira de técnico, como foi essa nova fase?

É quase impossível para um negro ser técnico no Brasil. O Didi, que talvez foi o jogador mais inteligente com quem joguei, teve que ir ao Peru para ser técnico. Andrade foi campeão brasileiro com Flamengo e hoje não tem oportunidades. Os dirigentes desconfiaram de mim, só tive oportunidades com clubes pequenos do Rio de Janeiro e depois de três jogos sem vencer, já me mandaram embora. Fui esquecido, foi uma coisa difícil a aceitar. Eu tive muita fama, muitos amigos e em poucos anos, todo mundo sumiu. Meu consumo de cocaína subiu drasticamente e dramaticamente. Não jogo a culpa em outros, foi escolha minha. No início era uma diversão, virou uma dependência química. Precisava do produto para me sentir vivo, fiz muitas loucuras por causa da droga, decepcionei muita gente. Perdi tudo na cocaína, fiquei sem dinheiro, quase sem teto. Foi ali que encontrei Deus, tive que ir ao fundo para encontrar o Senhor. Com a ajuda dos únicos amigos que me restava, consegui me reerguer, e graças a Deus nunca mais tomei drogas. Hoje cuido de crianças no Complexo do Alemão, num projeto que criei. Tento ajudar os jovens, avisar que tem caminho errado. Participo de um programa de futebol na televisão, é uma coisa em que me diverti bastante.

Seu bom humor constante e sua objetividade nas análises são características do show, como você avalia as chances do hexa na Copa que começa na semana que vem?

Primeiramente foi um absurdo organizar essa Copa no Brasil. Um país com tantos problemas na educação, saúde e transporte, não pode gastar tanto dinheiro só para agradecer a FIFA. Não é o brasileiro que vai aproveitar disso, muito menos o povo. O futebol brasileiro perde sua essência, hoje apenas o Neymar exalta o futebol-arte. A Seleção tenta jogar com os europeus e claro, não consegue, porque não é a identidade do futebol brasileiro. Imitar os outros só gera fracassos. Hoje, se privilegia mais a força física do que a técnica, fazemos atletas antes de jogadores de futebol. Tem uma queda de nível, apenas Neymar e Thiago Silva sobram nos seus clubes no momento. Vou torcer pela Seleção, mas na primeira vez que enfrenta um adversário poderoso, mais acostumado a esse estilo europeu, a gente sai. Pode me cobrar depois.

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