— Vocês vão pagar pelos que fugiram, moleques. Escolhe, moleque, quer tomar um tiro onde, no pé ou na mão?
Na Cidade de Deus, no final dos anos 1980, Zé Pequeno impunha a lei, sua lei. Longe das praias da Zona Sul de Rio de Janeiro, ele era o traficante mais poderoso da favela, um reino estabelecido com assassinos, traições e sangue, muito sangue. Ninguém ousava o desafiar, a não ser a Caixa Baixa, um bando de moleques que fazia assaltos na favela. Zé Pequeno tinha proibido os roubos e queria mandar uma mensagem com a única linguagem que conhecia, a violência. Com suas armas e soldados, ele foi até o quartel-general da Caixa Baixa. As crianças puderam escapar, com exceção de Otávio e Paulinho, presos pelos homens de Zé Pequeno.
— Bora moleque, escolhe. No pé ou na mão? Na mãozinha, né?
As lágrimas no rosto, o medo no corpo, Otávio estendeu a mão, tomou um tiro no pé. Paulinho teve ainda menos sorte, Zé tirou uma bola no pé e deu ordem ao Filé com fritas, seu soldado mais jovem, de pegar uma arma. Filé com fritas, só um pouquinho maior que Paulinho, medo na barriga, arma na mão, virou a cabeça, tirou na cabeça de Paulinho.
Rodrigo, um outro moleque da Caixa Baixa, teve tempo de escapar ao Zé e voltou em casa, sem saber qual dos seus amigos pagou com a vida para um crime coletivo. Na pequena casa, reencontrou seus irmãos e irmã, os gêmeos Thiago e Isabela, 13 anos, e o irmão menor, Hélio, 8 anos.
— Joga com nós? perguntou Isabela.
— Joga o que?
— A guerra.
A Caixa Baixa não era a única tropa que resistia ao Zé, que tinha eliminado todos seus inimigos, exceto um. Cenoura era um traficante de drogas e conseguia com dificuldade a manter seu território contra os soldados de Zé. A Cidade de Deus virou um inferno, dois bandos se enfrentavam, os tiroteios eram cotidianos, os corpos estendidos no chão também. A escola, cheia de balas, parecia definitivamente fechada, os trabalhadores trancados em casa, as crianças que não queriam ou podiam ficar em casa viravam os alvos da rua. Por falta de soldados, já mortos ao combate, Zé Pequeno e Cenoura enrolavam mais jovem e jovem, seduzindo os garotos com a promessa de uma peça ou uma vingança, com uma grana ou uma palmadinha.
— A gente é o bonde de Zé Pequeno, Rodrigo você é Cenoura, lançou Thiago, que na vida real tinha ingressado a tropa de Cenoura.
As crianças trocaram balas virtuais no salão, até a chegada de Hélio, que jogou na cara de todo mundo bolinhas de gude bem reais.
— Sou da Caixa Baixa, vou matar geral filhos da puta!
Os três maiores correram em cima do menor para dar uma lição, interrompida pela chegada da mãe, dona Celeste. Os gritos pararam.
— Isabela, chega aí, ordenou a mãe, dando algumas notas de dinheiro. Vou trabalhar, volto daqui duas semanas. Pega esse dinheiro para as compras da casa.
Dona Celeste era uma empregada doméstica para uma família rica de Copacabana. A viagem até a Cidade de Deus era longa demais para a fazer no dia, os tiroteios teriam a impedidos de voltar em casa na noite, então ela dormia na casa dos patrões, voltando de vez em quando em casa, lavar um pouco de roupas, dar um pouco de dinheiro e ver se tudo andava bem. Quando não estava em casa, Isabela cuidava da família. Rodrigo tinha vontade de chorar.
— Você deixa o quarto para Álvaro, vocês dormem no salão como sempre, adicionou Celeste, já pronta para sair.
Álvaro era o novo namorado de Celeste, desde que o pai saiu para Ilha Grande depois de um assalto que fracassou. Isabela ficou de beicinho, Rodrigo tinha um nó na garganta, não tinha saliva na boca. Dona Celeste bateu a porta, Álvaro saiu do quarto, entrou no salão, bateu na cara de Hélio.
— Arrume sua merda, moleque. Você, me dá o dinheiro, impôs Álvaro à Isabela.
— Mamãe deu o dinheiro para mim, eu vou fazer as compras.
— Não vá me deixar louco, gritou Álvaro, pegando violentamente o punho de Isabela.
Thiago partiu em direção de Álvaro, exigindo que ele deixasse Isabela, mas pesava 35 quilos, contra 85 para Álvaro, que o jogou contra um móvel com um simples gesto de mão. Com a cara satisfeita, Álvaro arrancou o dinheiro e, notas nas mãos, saiu da casa para o boteco de outro lado da rua.
— Vou matar esse filho de puta, falou Thiago, enxugando suas lágrimas.
— Como vamo fazer pra o dinheiro? preocupou-se Isabela. Essa merda não vai comprar nada pra comer.
— A gente vai achar um jeito, vou achar um jeito. Ajuda-me pra me vingar desse cuzão.
Isabela olhou para o passarinho da família no salão, um mainá que falava algumas palavras e que Rodrigo adorava. Isabela sorriu com malícia.
— Tô com uma ideia. Rodrigo, vá à farmácia, compra laxantes e vá no lixão depois.
— O que é laxantes?
— Não te preocupe, vai lá.
Rodrigo partiu à farmácia e Thiago chegou juntou-se à tropa de Cenoura, havia se tornado um olheiro. Ele sabia dos riscos, sabia que podia ficar estourado pela polícia ou a tropa de Zé, mas ele tinha o estômago e as bolsas vazios, sua família também. Rodrigo chegou na farmácia, atrás de um idoso, que tinha uma longa lista de remédios para comprar.
— Vamo tio porra, impacientou-se Rodrigo.
— São 500 cruzados-novos, diz a farmacêutica ao velho homem. Porém, esse remédio, não posso vender ao senhor, não figura na prescrição. Precisa voltar ao médico.
Rodrigo comprou os laxantes por 10 cruzados-novos e chegou até o lixão, onde Isabela o tinha encarregado de capturar pombos. Rodrigo achou dois cadáveres humanos, já fedorentos, fedidos de moscas. Eram dois jovens do bonde de Zé, um deles era um amigo de Thiago e Isabela. Rodrigo fez uma oração, capturou os dois pombos e voltou vitorioso em casa.
— É pra quê os pombos? perguntou Rodrigo à Isabela. Encheu o saco de pegar.
— Obrigada meu Pombo, falou com carinho Isabela, misturando os laxantes com a comida dos pombos. Se precisa deixar o quarto para o outro babaca, vamos o arruinar. Você vai ver o que vão fazer os pombos.
— Era barato os laxantes ainda, 10 cruzados só.
— Mudamos de moda, idiota. São 10.000 cruzados.
— 10.000? perguntou Rodrigo, sem acreditar. O velho na minha frente pagou 500.000 cruzados só de remédios?
— Parece que sim…
Em menos de uma hora, os laxantes fizeram seus efeitos e o quarto da pequena casa virou uma lixeira cheia de merdas de pombos. Os gêmeos riram muito e Rodrigo ganhava o apelido de Pombo. Descobrindo o quarto, Álvaro ficou 10 segundos sem se mover, sem dizer nada. O silêncio era assustador e as risadas das crianças eram discretas. Pombo sabia que ele ia viver duas semanas de inferno, de tapas e socos, então ver Álvaro viver um momento difícil o deixava cheio de felicidade. O silêncio foi quebrado, não pelo Álvaro, nem pelos irmãos, mas pelo mainá.
— É cocó.
Isabela não conseguiu não rir à gargalhada. Álvaro não falou nada, não bateu ninguém, saiu o pássaro da gaiola e quebrou seu pescoço. O barulho seco gelou Pombo, o mainá caiu morto no chão. Álvaro sorriu com satisfação e saiu da casa.
— Fazia um tempo que não aguentava esse pássaro. Quando volto, o quarto é limpo.
— Mas sai daí, gritou Thiago. Você não é o bem-vindo aqui e nunca será. Volta aqui e te passo.
Porém, Álvaro voltou, aplicou sua lei em casa, inventando pretexto para bater, com a palma ou o punho dependendo do humor. As crianças viveram três semanas de inferno, até a rua e seus tiroteios pareciam mais seguros. Finalmente, dona Celeste voltou na Cidade de Deus, a casa reencontrou um pouco de calma e paz. Álvaro voltou a ser gentil por um momento, uma ilusão. Celeste tinha o rosto grave, um olhar preocupado, e falou sem rodeios.
— Álvaro, tem que falar com você… Estou grávida.
— Falou o quê? Você me fez um filho escondida?
Álvaro segurou o pulso de Celeste e bateu na bariga, Thiago segurou uma arma e ameaçou o padrasto.
— Mete o pé, toca mais uma vez na minha mãe e eu te passo, advertiu Thiago.
— Vai fazer o quê moleque?
Álvaro ficava sereno, Thiago, com ódio no corpo, dedo no gatilho, disparou. Meteu a bala para matar, mas tremendo de medo, erro o alvo, a bala apenas passando perto do ombro de Álvaro.
— Tá bom, ganhou… Tô fora, não quero nada com essa família de doidão.
Era o fim, o padrasto sumiu e nunca mais voltou. A mãe gritava, mandava o filho maior de sair da casa. O filho pequeno chorava, já consolado pela irmã. Rodrigo imitava seu irmão, saia da casa para ficar com sua tropa da Caixa Baixa.
— E aí Pombo, falou Lampião, vendo Rodrigo se aproximar. Zé Pequeno deu armas pra nós.
— Zé Pequeno? Você falou para Otávio? Esqueceu que matou Paulinho?
— Se um babaca quer me dar armas, vou pegar. Foda-se o Zé, com isso a gente vai fazer assaltos.
— Tô com uma ideia, falou seriamente Pombo. A gente vai assaltar uma farmacia.
— Uma farmácia?
— Sim, nois assalta supermercados, padarias, por que não as farmácias? Tá cheio de grana, pode roubar os remédios também. Tem que custam caro pra caralho e tem que ir no médico pra comprar, tá ligado? A gente rouba e vende. Nois deixa as drogas pra Zé e Cenoura, a gente vende os remédios. Cê acha que os velhos da favela vão dizer alguma coisa se vende mais barato? Porra, nois vai ser os donos da favela, tá ligado?
— Zé falou que não pode roubar na favela.
— Foda-se Zé, seus homens são mortos pelos caras do Cenoura. Os caras do Cenoura têm armas pesadas pra caralho, até os cana não têm isso.
— Como que sabe?
— Meu irmão que falou, respondeu Pombo. Te falo, acabou o Zé.
Os garotos da Caixa Baixa pareciam concordar com Pombo. Logo depois, Felipe, um outro moleque da tropa, juntou-se aos seus amigos, gritando coisas incompreensíveis.
— Pombo! Pombo! Gritou Felipe. É teu irmão… Os caras do Zé atacaram Cenoura, pegaram Thiago. Mataram seu irmão.
Pombo ouviu mas não entendeu, não conseguiu dizer nada, ainda menos chorar. Sentia milhares de olhos em cima dele e ninguém podia fazer nada por ele. Ele não queria acreditar, chorar seria o começo de aceitar a verdade, que seu irmão era morto. Pombo não era pronto, não tinha sentido isso quando seu pai foi para a cadeia, quando seu irmão maior Jorge saiu na Rocinha, quando seu padrasto o tinha estrangulado até o desmaio. Pombo queria desmaiar ou acordar, ele não sabia mais o que era real, o que não era, onde morava, quem era. Thiago era seu modelo, seu herói, seu Deus. Se Thiago queria ser jogador de futebol, Pombo também, Thiago médico, Pombo médico, Thiago criminoso, Pombo criminoso. Realizando aos poucos a morte de seu irmão maior, Pombo chorava aos prantos, como a criança de 11 anos que era. Nada podia trazer de volta Thiago, nada podia aliviar seu coração, Pombo tinha os mesmos buracos na sua pele que Thiago. A partir desse momento, uma parte de Pombo tinha morrida, a da infância, da inocência.
Com seus amigos da Caixa Baixa, Pombo teve sua vingança fria. Cenoura foi detido pela polícia e acabou preso, Zé Pequeno foi detido e acabou liberado, deixando para a polícia o pouco de dinheiro que a guerra ainda não lhe tinha pegado. Zé era sozinho, sem dinheiro, sem armas. Os garotos da Caixa Baixa eram juntos, miseráveis mas armados.
— Aí, Pequeno. Tu tá fudido, hein?
— Aí, molecada, vocês têm que sair pra fazer uns assalto aí, pra poder levantar a minha boca, morou?
— Quem falou que a boca é tua? ameaçou Otávio.
— Tá maluco, moleque?
— Isso é pelo nosso amigo, filho da puta! Ataque soviético nele !
Pombo, Lampião, Otávio, Felipe, Senna, Gigante e todas as crianças da Caixa Baixa apontaram suas armas e, numa salva de tiros e ódio, colocaram um fim ao reino sanguinário de Zé. Era para Paulinho, para Thiago e os outros, era para a promessa de glória, poder e grana, para ser os novos patrões da Cidade de Deus. Pombo não aproveitou por muito tempo. Logo depois, sua família, com Fernando, sem Thiago, voltaram para a Rocinha, uma outra favela de Rio de Janeiro. Ela era mais perto da Zona Sul e do trabalho de dona Celeste, a vida prometia melhorar. Pombo arrastava sua mala esperando o ônibus, o olhar perdido na favela, os sonhos perdidos no passado. Chegou Buscapé, um fotógrafo que também morava na Cidade de Deus.
— E aí, tá saindo?
— É, nois vai na Rocinha. Tu mete o pé também? perguntou Pombo, observando uma grande mala nos pés de Buscapé.
— Sim, sou fotógrafo, eu vou cobrir a Guerra do Golfo.
— Golfo? Qual é a favela?
— Não, não tá no Rio, é no Iraque. Eu me chamo…
— Buscapé, interrompeu Pombo. Te conheço, tá maneiro.
— No meu jornal, a gente me chama Wilson Rodrigues. Como te falei, sou fotógrafo. Posso tirar uma foto de vocês, de costas, com as malas esperando o ônibus?
— Pra fazer o quê?
— Gostaria de fazer um livro fotográfico sobre a vida na favela.
— Favelados que vai numa outra favela, quem liga pra isso?
Wilson Rodrigues encolheu os ombros, tirou a fotografia, imortalizou o fim de uma época, o início de uma outra vida.






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