Hoje é dia de jogo no Rio. Anderson sai de sua favela do Morro da Serrinha, em direção ao Maracanã, com todo seu equipamento: tripé, câmera, microfone, anel de luz. Faz um ano que ele é Tiktoker, com um conceito tão simples que complicado: fazer vestir aos torcedores a camisa do rival. Hoje, Flamengo joga contra Vasco, o clássico mais quente do Rio. Os torcedores de Flamengo e Vasco se entendem apenas por uma coisa: o ódio do Fluminense. Anderson chega duas horas antes do apito inicial para aproveitar da falsa tranquilidade do Maracanã e achar suas primeiras vítimas consensuais.
Com seu amigo de infância Kahuan, Anderson compra aos vendedores de rua as novas camisas do Flamengo e do Vasco, e espetos de carne. 120 reais mais tarde, Kahuan ajusta a câmera e Anderson prepara sua primeira nota de 50 reais. Fazer vestir a outra camisa seria impossível sem recompensa.
— Fala galera ! Hoje estamos no Maracanã e vamos ver se para 50 reais, você pode vestir a camisa do rival. Vamo lá!
A troca é simples, 50 reais e uma pequena fama para o flamenguista vestido da camisa do Vasco, para o vascaíno com a camisa do Flamengo nas costas, Anderson aproximando-se dos 300 mil seguidores no TikTok. Anderson começa as primeiras tentativas, engole as primeiras recusas, aguenta as primeiras insultas.
— Tá doido rapaz?
— Mesmo por um milhão, não uso a camisa do Vasco!
— Tenho que ser morte para vestir a camisa do Flamengo!
— Toma no cu maluco.
— Do Varmengo nunca!
— Já tô feio, tem que vestir a camisa do Basco ainda?
Cada um tem seus motivos, cada um tem seu modo de designar o rival, ninguém ainda aceitou os 50 reais de Anderson. O jovem de Madureira não se desespera e identifica um jovem casal formado por uma vascaína e um flamenguista. Com a experiência, Anderson sabe que é mais fácil de convencer duas pessoas do que apenas uma. Maria e Peter são um casal faz dois anos e a rivalidade Flamengo – Vasco é o único ponto de divergência, fora todos os outros. Eles vão assistir ao jogo na tribuna Este, a melhor opção para quem quer ver a partida com um torcedor do outro time e que não quer pagar muito caro. Os torcedores se provocam entre si, mas o clima fica bom. As brigas acontecem entre os membros de torcidas organizadas, às vezes entre pessoas alcoolizadas. Não é o caso de Maria e Peter.
— Vai lá amor, quero te ver com a camisa do Vasco, motiva Maria.
— Se faço, você tem que fazer também, negocia Peter.
— Vamó ver.
A contragosto, Peter aceita e veste a camisa do Vasco, que ele se apressa de tirar. Anderson lhe dá os 50 reais e fala para a câmera:
— Agora podemos dobrar com Maria. Maria, por 50 reais, você aceita vestir a camisa do Flamengo?
— Eu não.
— Como assim? pergunta Peter, sem acreditar.
— Eu não prometi nada.
— Você acredita nisso? pergunta Peter para Anderson, tentando ter o TikToker ao seu lado. Não posso acreditar numa traição assim.
— Traição de que? É você que trai seu clube, fala com malícia Maria. Amor, como você tá mais rico de 50 reais, você compra um boné do Vasco para mim?
— Tá de sacanagem…
Anderson continua sua procura de torcedores prontos ao sacrifício para 50 reais e encontra João, camisa de Vasco nas costas. João tem 30 anos, é informático e é uma boa metade do clichê de um informático. Barbudo com cabelos longos, ele gosta de videogames, rock, tem uma namorada e amigos. Mas ele é mais solitário, gosta de passar tempo com ele mesmo, indo sozinho para shows ou jogos de futebol. Ele vai na tribuna Sul, a das torcidas organizadas do Vasco, com os torcedores mais barulhentos. João ama o Vasco, mas ele vem sobretudo para o clima da arquibancada, a melhor do Rio segundo ele. Quando Anderson oferece 50 reais para vestir a camisa do Flamengo, João encolhe os ombros e faz a matemática na sua cabeça: com cerveja a 12 reais dentro do estádio, renda 4 cervejas, seu consumo habitual. João veste a camisa do Flamengo, hoje ele vai beber grátis.
Depois de outras recusas, com a hora do jogo se aproximando e a rampa do Maracanã para o acesso ao metrô cada vez mais cheia de gente, Anderson chega perto de uma outra dupla vascaíno – flamenguista, sem adivinhar a ligação entre eles. Essa ligação é o futebol. João Victor mora no bairro nobre de Tijuca e Guilherme mora a um quilômetro de lá, mas num mundo completamente diferente, no Morro dos Macacos, favela de Vila Isabel. Eles trabalham no mesmo lugar, um prédio no Centro do Rio. João Victor é dono de uma empresa de marketing, Guilherme faz a limpeza dos inumerosos escritórios. Os dois chegam muito cedo ao trabalho, por obrigação. Às 6h da manhã, João Victor liga o computador e começa o trabalho. A empresa ainda é nova, já funciona muito bem e João Victor ganha muito dinheiro, suficiente para comprar presentes aos seus filhos. Mas por isso, precisa acordar cedo e começar a trabalhar quando os corredores ainda estão vazios.
A única presença nos corredores é do Guilherme. Faz três anos que Guilherme trabalha neste prédio do Centro, limpa os escritórios, lava as janelas, vaza as lixeiras. É um trabalho honesto, difícil, não muito bem pago, mas suficiente para alimentar seus filhos. Guilherme é feliz com esse emprego, sabe que tem ainda mais difícil, ainda menos bem pago. Ele não tem problema para acordar cedo, só falta a presença de seus filhos, ainda adormecidos, depois a dos empregados, ainda nos transportes. Apenas João Victor está aqui, com seus óculos retangulares, sua camisa social perfeitamente passada a ferro e a moldura ao lado do mouse de computador. Guilherme não lembra o que os aproximou, se é a foto da família – ambos têm três filhas, ou se é a moldura do Flamengo, João Victor é flamenguista, Guilherme é vascaíno. Não importa, o que importa é que faz dois anos que João Victor e Guilherme levam cinco minutos, todos os dias, para conversar, muitas vezes sobre futebol, às vezes sobre a vida. A partir daí, sem se dizer, tornaram-se amigos.
Faz muito tempo que João Victor queria o fazer, ainda não teve a oportunidade. João Victor queria levar Guilherme a um jogo no Maracanã. Guilherme nunca tinha voltado ao estádio desde a reforma para a Copa de 2014, que definitivamente afastou o Maracanã do povo, de sua essência, de sua alma. Guilherme é um vascaíno fanático, João Victor tem o Flamengo no coração, mas os dois raramente vão ao estádio, por falta de tempo ou de dinheiro. Guilherme acompanha todos os programas sobre seu clube, nunca perde uma notícia sobre Vasco, ele reclama quando seu time perde, mas sempre acha os recursos para zoar João Victor e Flamengo. Hoje, Guilherme troca sua velha TV para o Maracanã e sua tribuna Oeste, a tribuna de honra, com a melhor visibilidade. Guilherme quase voltou a ser criança, impressionado com a multidão, que ele portanto tinha conhecido tão bem.
O Anderson se aproxima dele e Guilherme não entende imediatamente. Ouve “Flamengo” e “50 reais”. Faz as contas na sua cabeça, 50 reais é um dia de trabalho, 50 reais é uma calça jeans e uma camisa para sua filha primogénita, 50 reais é livros e canetas para sua segunda filha, 50 reais é um pacote de 40 fraldas para a filha mais nova, 50 reais talvez até é um presente para sua mulher, que vai fazer o aniversário no mês que vem. Guilherme não tem dúvidas e veste a camisa do Flamengo com o sorriso que quase sempre tem. Meio divertido meio congestionado, João Victor sorri ao ver seu amigo com a camisa do Flamengo, pensando sobre todas as vezes que Guilherme xingou o time inteiro do Flamengo, jogadores, técnico, dirigentes e torcedores incluídos. Ainda sorrindo, João Victor aceita de boa vontade de vestir a camisa do Vasco e de tirar uma foto improvável com seu amigo tanto improvável.
A hora do jogo se aproxima e Anderson identifica um novo alvo, camisa do Flamengo nas costas.
— E aí jogador, você vai em qual tribuna ?
— A Norte, claro, responde Guga. Aqui que torço mais para o Flamengo.
— Vamó lá flamenguista. Agora quero ver, por 50 reais, você aceita vestir a camisa do Vasco?
Guga pega um momento para observar a camisa vascaína, quase admirando-a, o que pega de surpresa Anderson.
— Porra, essa camisa é de 2000 né? Deixa eu te contar, quando era criança, gostava dos dois clubes. Minha mãe faleceu quando tinha 2 anos e foi minha vó que me criou, a mãe de minha mãe. Meu pai também, mas trabalhava pra caralho, eu tava entre as duas casas, tá ligado? Aí minha vó era flamenguista e meu pai vascaíno. Com meu pai que fui pela primeira vez ao Maracanã, trabalhava na Surderj na época e tinha ingressos. Foi em 2000, tinha o Mundial dos clubes, assisti ao 3×1 contra Manchester com o golaço de Edmundo. Gostava do Romário pra caralho também, fez 2 gols neste dia. Aí ficava dividido entre os dois clubes tá ligado, e um ano depois, Flamengo venceu Vasco na final, com aquele gol de falta de Petkovic e aí já era, era só Flamengo depois. Mas meu pai adorava Vasco, tinha essa camisa de 2000 que vestia sempre, na real sempre cara. Morreu quando eu tinha 18 anos, no dia de meus 18 anos cara. Era muito doente, lutou até o fim… Depois disso, eu tava sozinho, minha vó já tinha falecido, só tinha o Flamengo para me trazer um pouco de alegria, tá ligado? Vou vestir essa camisa sim amigo, como se chama?
— Anderson.
— Anderson, vou vestir a camisa do Vasco, nem precisa me pagar pra isso, vou fazer para meu pai.
Guga veste a camisa do Vasco, olha para o escudo e faz uma oração. Anderson insiste para oferecer os 50 reais ao Guga e o olha afastar-se em direção da Norte. Depois, decide voltar em casa, sem nem assistir ao jogo, prefere já começar a edição do vídeo. Volta com Kahuan e todo o material na moto, em direção ao Morro da Serrinha. Na entrada da favela, são violentamente interceptados pela blitz. O policial puxa a arma, pronto a disparar. Anderson só tem o tempo de levar as mãos.
— Levanta as mãos filho da puta, grita o policial.
— A gente fez nada.
— Que porra é essa? continua gritando o policial, agora com o tripé nas mãos.
— É um tripé para ajustar a câmera. Faço vídeos na Internet.
— Quer morrer filho da puta? Entrar na favela com fuzil?
— Não é fuzil, é tripé, para o trabalho, defende-se Anderson.
— Trabalho é o caralho! Vai tomar tiro, vai morrer e depois vai ser a culpa da polícia? Tá maluco! Aqui não é Internet, aqui é Rio porra.






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